segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mediterrâneo 2

Montserrat Figueras era uma das músicas deste Mediterrâneo. Calou-se para sempre a sua voz catalã que atravessava o hebraico e o árabe, trazia os perfumes até à Ibéria, voz margem deste mar de infinita compreensão, de infinito sorriso quando os sons de Saval compõem melodias nos terraços de Jerusalém. Uma lágrima pela Síria escorre pelos ouds, uma mão no coração saúda os votantes egípcios e marroquinos, um azedume contamina a opinião sobre a Líbia. Marrocos já votou. O Egipto já votou. A Tunísia já votou e aí são presos e perseguidos ateus. Khadafi foi executado como se esperava. Uma parte da Europa banha-se no Mediterrâneo mas, como aqueles turistas que voltam as costas ao mar e fazem piqueniques que deixam lixos nas poças entre as rochas, assim esta Europa continua a olhar para Berlim enquanto a Grécia arde e morre desistindo de uma vida escrava. O fantasma de Fídias vagueia assustado pelas colunas do Parténon enquanto troikas incultas e predadoras ditam as novas e espartanas leis. Corre o slogan de que somos todos gregos e esta voz atravessa as margens do nosso mar e transporta este mantra infeliz pelas areias de todos os desertos. Jihads espreitam o rigor das práticas religiosas ou o cumprimento de todos os défices. A dívida pública tornou-se no novo Alcorão e novas bibliotecas de Alexandria aguardam em pânico os incêndios que se avizinham, inelutáveis. Os economistas deste mar tornaram-se tementes de Deus e oferecem-se em demorados sacrifícios nos plateaus da fama efémera, carpindo as tábuas da contabilidade. Este mar, ara de sacrifícios dos povos da margem vai ficar, em breve, coalhado e vermelho. Somos todos gregos sim e queremos voltar a ver tirremes coloridas e sonoras sulcando o mar e outras vozes e outras línguas gritadas da outra margem para que acordemos deste torpor esclerótico europeu.

Kabir Festival Mumbai- Mukhtiar Ali-Sufi Rajasthani Folk Singer

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A loucura normal

É uma coisa que todos temos a loucura. Uma coisa que nos habita e explora os territórios onde alugamos a residência afectiva, invade a casa do vizinho, tranca as portas e as janelas onde, por vezes, penduramos flores. A loucura normal é bem pior, envenena, não olha direito, é normal, inteligente e artística, desempoeirada e um pouco oportunista. Os maus observadores dizem que é falsa eu, não. Acho que é totalmente verdadeira na dimensão do sofrimento que lhe tolhe o fluir do plasma, estabelece dogmas sólidos e pacientemente construídos em noites e dias brancos, em afirmações repetidas à exaustão. A loucura normal é socializante e pública, simpática e um pouco cínica como se deve. A loucura é normal.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cães de choque

O que eu sugiro é que na próxima manifestação de polícias, o povo empunhe uns paus e vá "manter a ordem" modificando assim, ligeiramente, o slogan de Abril: polícias a correr à frente do povo em vez de polícias ao lado do povo. Cumprir Abril neste caso pelos costados abaixo. Por outro lado compreendo que quem treina várias vezes para "defender a ordem" e não consegue fazer estágios por exemplo no Afeganistão, tenha que fazer o gosto ao bastão aqui mesmo no centro da cidade. É um estágio profissional e tem a vantagem de ser pago. Nesta manif a minha avaliação das forças da ordem é de 17 valores.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A propósito do dia mundial da poesia

Primavera planetas alinhados, meu filho transa o corpo que não lhe cabe na pele.
Primavera, Sol que bate dentro das tea-shirts e uma testosterona invade as perfumarias.
Na rua, na poesia do dia, as mãos descontrolam-se pelo sexo adentro.
Não é só de agora que o amor urge.
A mudança climática incomoda o planeta e tu.
Está húmido na mente.
Há fungos à solta no bosão de Einstein.
A relatividade geral desnuda a física e os olhos mordem a tanga.
Primavera.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Estatísticas


Os velhos morrem. Os velhos morrem o dobro do que costumam morrer. Os velhos inquietam as estatísticas que serão analisadas por uma bateria de não-velhos. Os resultados serão publicados daqui a uns meses quando mais velhos terão morrido fora ou dentro do previsível. Num pais de cravos não haverá flores nestas valas comuns.  Seis mil flores mal empregadas, dirão, para quem ia morrer de qualquer maneira. Não há discurso, programa de partido, discussão na Assembleia, feriado abolido que resista a esta solidão, a esta doença não tratada, a este frio pelos frágeis ossos acima, a este definhar escondido e envergonhado. É um número simbólico, murro no estômago de um pais merdoso que é o nosso. É um número triste que destrói definitivamente qualquer argumento elegante e pseudo-científico. É um número frio, matematicamente puro, inexorável. É um número de uma clareza estonteante, um retrato à la minuta do caminho que percorremos durante décadas. Chegámos aqui, engravatados e europeus, corruptos, austeros, turistas em Santa Comba. Que nojo!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012