quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Acordo Ortográfico


Reparem como o desenho do U sugere infinitas descobertas em recantos ocultos, enquanto o desenho do O é fechado, hermético, frio e sem mistério. Amu-te com U é amor de pele, de cheiro, de descansar no outro corpo enquanto que amo-te com O é lógico, racional, platónico, o contrário da paixão. Vale a pena propôr à Academia que se passe a escrever: amu o Acordo Ortográfico, afinal não é mais do que o que faz o Brasil que escreve como diz.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Afinal Cavaco vota PS

Estávamos todos enganados, eu próprio sugeri ao Sr. que resignasse num anterior post. Não percebo nada de política. Só um visionário genial como Pacheco Pereira intuiu a verdade. Estas várias atitudes da Presidência da República destinaram-se tão só a levar os eleitores a descredibilizar Manuela Ferreira Leite e a votarem PS. É uma manobra de alta política e de fino recorte estratégico. Manuela Ferreira Leite, montou-se nos incidentes e acidentes vários não percebendo que o seu mentor lhe estava a armar uma teia onde ela está todos os dias a cair. Por isso não esqueçam, os votos a mais que o PS obtiver nestas eleições, deve-os ao PR. Assim se cumpre a cooperação institucional. Obrigado sr. Presidente!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Olho no blogue

Há quem esteja de olho neste blogue. Se o blogue fosse da Manuela, ela diria que a estavam a asfixiar, democraticamente, claro. Eu pelo contrário agradeço os olhares pousados neste Ayyapa que é, por definição, alguém em peregrinação, como tal difícil que lhe ponham a vista em cima. Estas várias indicações, OLHO NESSE BLOG, BLOG VICIANTE e outras afirmam, entre outras coisas, uma partilha e uma vitalidade neste universo blóguico que é muito estimulante. Além de afagarem os egos o que é sempre positivo, desafiam a prosseguir com mais qualidade porque ficamos com a certeza que, afinal, alguém lê. Obrigado. Como compete, aqui vão alguns blogues que merecem o olhar.
Restolhando
Delito de opinião
Puxa palavra
A nossa candeia
Escada de Penrose
Valor das ideias
Der Terrorist

domingo, 20 de setembro de 2009

Américo Cavaco da Silva Tomás

Estou, de novo, com vergonha de ser português. Durante o Estado Novo ter um Presidente que visitava os lugares, repetia as frases das anteriores visitas e falava nos canários, piriquitos digo, de um qualquer Almirante, dava bastante vergonha mas era uma vergonha envergonhada e silenciosa. Responder aos amigos estrangeiros sobre as guerras em África, sobre Nambuangongo, sobre Wiriamu, provocava uma vergonha dolorosa e difíceis explicações sociopolíticas. Agora, desde a eleição de Cavaco Silva que voltei a ter vergonha de ser português e representado por tal figura. O homem não tem estatuto, nem elevação nem cultura para ser o meu representante em nenhum fórum. O homem, ainda por cima, é um "conspirador" que diz que vai averiguar em tempo útil as questões de segurança.
— Ó Lima o que é que temos aí que possa atrasar a situação?
— Só temos uma coisa já velha... aquilo do assessor na mesa errada.
— Pois que seja isso, já que não há mais nada... aquela Manuela só faz disparates em alta velocidade.
O PR perdeu qualquer credibilidade e isenção depois de tudo o que aconteceu e que tem sido noticiado e das suas não-atitudes. O artigo de Emídio Rangel é claríssimo. Sr. Américo Cavaco da Silva Tomás, resigne.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Os inúteis professores votam útil

Temos os nossos filhos entregues a estes utilitários. Os movimentos independentes de professores aconselham o voto útil. "o mais importante é penalizar o PS", dizem. Isto é, se no seu distrito, caro possível professor do meu filho, tiver possibilidade de ganhar o PC, vote PC, se for o Bloco, vote Bloco, se for PSD, vote PSD e assim sucessivamente. O seu pensamento, a sua ideologia, a sua ética política não interessam nada, o que interessa é prejudicar o partido que governa o que os quer avaliar e dar trabalho. Dizem que os professores têm um papel muito importante na sociedade, são os garantes e os transmissores dos valores éticos, morais e culturais desempenhando assim um importante papel na coesão social. Esta lição do mais reles oportunismo e do grau zero da cidadania que nos dá o movimento de professores independentes, é um poderoso indicador de que devemos tirar os nossos filhos da escola.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Providência cautelar

À cautela também acho melhor suspender as eleições. Está tudo a correr tão de feição: Manuela Ferreira Leite arranjou um sorriso esticado e sentido de humor, Sócrates até já fala baixinho e não usa tanto o indicador, Paulo Portas está preparado para ser Primeiro Ministro (não é uma piada esmiuçada), Cavaco Silva, ou melhor, um assessor do PR, faz um discurso tipo Obama branco onde pretende ter piada. Apenas Jerónimo se mantém igual a si próprio e Louçã sempre messiânico acima de sorrisos ou de semblantes carregados. Concordo com a providência cautelar apresentada por uma frente de pequenos partidos que se sentem injustiçados por não poderem comunicar ao povo as suas originais visões estratégicas. Imaginemos que as eleições eram suspensas por um ano e que os políticos continuavam a vestir a pele de assistentes de gatos fedorentos...tirando o mau cheiro, não era extraordinário?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não, não queremos

Não, não queremos ser governados por si. A senhora cheira a Câmara Corporativa e a Portugal dos Pequeninos, tresanda a Movimento Nacional Feminino e daria uma excelente madrinha de guerra não duvido. Não, não queremos ser governados por si porque em política não vale tudo, mesmo em campanha eleitoral, diria até, sobretudo em campanha eleitoral. A senhora asfixia a decência quando fala em asfixia democrática, quando se pronuncia sobre o TGV, quando se pronuncia sobre os pobres, sobre as PME, quando compara a liberdade de expressão na Madeira e no Continente. O seu discurso é antigo, bolorento e bafiento, manhoso, já ouvido em RTPês a preto e branco. É o discurso de um pequeno Portugal analfabeto e colonial que não queremos ouvir de novo. Já sabemos onde ele nos conduz. Não, não queremos ser governados por si porque queremos ser sérios, competentes, europeus, modernos, ousados, rebeldes, habitantes deste milénio e deste Mundo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Étês (eleitores)

Esqueçam as marcas misteriosas no planalto andino, enterrem a caveira de cristal e Indiana Jones, desdenhem dos vários comités UFO no Mundo porque eu tenho uma teoria: os únicos e confirmados seres extra terrestres, habitaram Portugal no século XVI. D. Manuel I, Garcia de Orta, Fernão Mendes Pinto e mais uns poucos, não eram terráqueos muito menos portugueses. Portugueses de gema são por exemplo o Zé que tem um pequeno negócio:
— Quem eu ...fosca-se...facturas? para encher a barriga do Governo...da-se. Agora ao menos parece que isto vai mudar.
Ou a Zézinha que tem uma boutique de Outlet:
— Ó querido se não fosse o meu contabilista eu tinha lá dinheiro para estes sapatos e quanto é que pensas que custa a revisão do Audi...
— Sim, sim claro que sou pela despenalização, assim já posso vender sem ter a bófia sempre a fancos, este Governo é muito repressivo e autoritário, impede a liberdade comercial.
— Se recebi prémio este ano...naturalmente, compreenderá que a actividade bancária é ...sei lá ...eu até a comparava com a dos repórteres de guerra...é muito desgastante.
— O negócio está mau...isto não dá nada...estou asfixiado...veja bem que só conseguiu ir de férias para o México com a família e isso graças a ter ficado com o abaixamento do IVA. Se vou reflectir isso nos clientes...tábemtá. Sim espero que ganhe a senhora claro...estes do Sócrates estão sempre em cima de quem trabalha.
— Eu...não sei se diga afinal o voto é secreto...é PS...sim as minhas amigas também...adoramos a Carolina... o programa? Bem não li mas a minha tia leu e acha o máximo.
— Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo
Mas o que é que o leva a votar CDU? — Jerónimo... Jerónimo...
— O Programa do Bloco...sim e não vamos lá ver as coisas são como são, ele há alturas em que é preciso tomar uma atitude ou o amigo não acha que a direita está a tomar conta disto?
Esta é uma pequena amostra dos portugueses suaves, os verdadeiros, aqueles que votam acertadamente e elegem outros portugueses verdadeiros, talvez não tão suaves mas genuínos. Gente prosaica que não se mete em aventuras marítimas. O português suave não mete água!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

La gauche c'est moi!

Li atentamente a entrevista de Francisco Louça ao Público de hoje, 8 de Agosto. Li e fiquei preocupado com a falta de lucidez e de inteligência política de um homem de esquerda. Simultaneamente surpreendeu-me a coerência e a fidelidade cega e serôdia à linha politica trotskista. A ideia é então partir o PS por dentro, rejeitar o que dele não é esquerda pura e tentar arregimentar, para a sua causa, a esquerda desiludida do socratismo. Bom tópico para um seminário na Zambujeira do Mar, mas fraco como politica eleitoral do concreto e do real português de hoje. Francisco Louça confunde o PS com alguns dos seus quadros dirigentes e esquece que o PS é também e isto não é de todo despiciendo, movimento de massas, fortes dinâmicas de pessoas.
Louça afirma “ a esquerda precisa sobretudo de ter uma força para a maioria. Essa força não é o PS.” ou “ a nossa competição é com o PS e o PSD”. Colocando no mesmo prato PS e PSD Louça continua, como Miguel Vale de Almeida escreveu, na lógica do “quanto mais dificuldades e tensões sociais melhor”, na lógica do aparelho PSR, numa estratégia cega e perigosa face à actual situação politica.
Ainda não perdi a esperança de ouvir Louça dizer numa visita ao Palácio de Queluz: La gauche c’est moi.

sábado, 5 de setembro de 2009

Étês (eleitos)




É uma típica família portuguesa. A mãe, o tio, o filho e dois sobrinhos. É uma família monoparental daquelas que dão aerofagia ao Cavaco: “neste período pré-eleitoral o Presidente da República humm não comenta humm a composição das humm famílias. Os portugueses e as portuguesas sabem humm a minha opinião”. Apesar disto é esta família que vai a votos. A mãe dá recados e, como não podia deixar de ser tem uns cartazes com uma linha gráfica clássica. A mãe não diz ao que vem mas aconselha: “façam politica com as pessoas”, “prometam só o que podem cumprir”, meus filhos, acrescento eu. O tio, igualmente numa linha gráfica clássica, imagem à direita/centro texto à esquerda, plano médio mais busto que outra coisa. O tio afirma que é possível uma vida melhor e é, não tenho dúvida. Ó tio porque é que não se inspira nos cartazes da revolução soviética?
O filho aproxima-se em grande plano e deixa a pairar um conceito abstracto para a masturbação dos urbano-depressivos e das várias Carolinas, “avançar Portugal”, yá, vou pôr no meu próximo rap. O sobrinho dilecto não dá a cara, ele é só script cretino e provocador. Apetece perguntar porque que o P. é mais fascista que o P. O outro sobrinho, mais modernaço apesar de messiânico, grande plano cortado com a banalidade “justiça na economia” quando o slogan adequado seria Justiça Economia. Estes vão ser os eleitos principais. O restante casting está para se ver e ouvir mas pelo andar da carruagem não esperem coisas originais.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vou deslocalizar-me

Sempre fui contra esta atitude anti-económica mas o período que se avizinha levou-me a tomar, a contragosto, esta penosa decisão. Este blogue que é sobre a Índia vai deslocalizar-se para outro continente. As multinacionais deslocam-se para o cu de Judas, eu vou reiniciar as minhas actividades no cu da Europa, em Portugal. Sei que é um movimento que está ao arrepio de todas as teorias neo-liberais mas ...que fazer? Impensável perder as oportunidades de negócio que se avizinham com a campanha eleitoral em Portugal. Que prado de ideias para textos e para imagens, que manancial tão rico para a crítica e para a pura maledicência. Nem este microblogue poderia perder tal oportunidade. Que me desculpem os meus leitores indianistas mas...vou deslocalizar-me. Prometo que será apenas até que Cavaco anuncie a constituição de um governo indigitado por si próprio ou pelo PS. Depois, regresso à mãe Índia porque isto aqui vai ficar impossível de habitar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


A Nossa Candeia agraciou-nos com o selo "O Seu Blog É Viciante"...
Este Prémio "Seu Blog É Viciante", resulta na comunhão de 3 princípios que são um compromisso:
a) Contribuir para divulgar a defesa do ambiente e do equilíbrio do nosso planeta;
b) Contribuir para a consciencialização da necessidade de uma Humanidade mais justa;
c) Melhorar a qualidade deste blogue;
Faz parte das regras relativas a este selo indicar outros dez blogues que o mereçam. Fá-lo-ei posteriormente.
Sou como é evidente, favorável a estas toxicodependências e, critico, as drogas de substituição. Agradeço do coração ao A Nossa Candeia e vou esforçar-me para continuar a produzir material com elevado grau de pureza.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A mãe

É um facto que a Ásia, particularmente a Índia é profícua em mulheres nos vários níveis do poder. Duvido que os orientais elegessem Manuela Ferreira Leite. Mas, em Portugal a mãe vai dizer ao povo, a VERDADE. Sem comícios que possam despentear a laca da rigidez. A mãe e muitos assessores a que o povo chamará tios, redigiu um programa mínimo dois em um. Santana apoia, Pacheco engole, Cavaco ( e o que ele se tem contido), está danado para poder anunciar ao país que a sua amiga foi indigitada para formar governo no qual, ele Cavaco, não desdenharia da pasta de Ministro do Interior.
A mãe vai dizer uma série de banalidades salazarentas como as mães costumam dizer aos bebés: suspenderei de imediato a avaliação de professores...os meus pequeninos são todos bons e óptimos e esse papão é que vos quer fazer passar por pessoas normais; o aeroporto vou fazê-lo às mijinhas meu pequerrucho que uma coisa tão grande assim não pode ser feita de seguida não é meu amor. E por aí adiante. O grave é que os políticos não percebem estes fenómenos básicos da segurança, do seio e do colo. Portugal está na merda, o Mundo idem e sabemos que, se a ocasião se proporcionar, os homens farão a história andar para trás com a mesma facilidade com que bebem uma bejeca com tremoços na tasca do Aníbal.
A direita faz o seu papel de predador. O que me incomoda são as posições dos partidos de “esquerda”. O Sr. Jerónimo não leu os clássicos com atenção porque se o tivesse feito (em vez de ler todas as obras de Cunhal), perceberia que há momentos em que a História (o que quer que isso seja) exige, neste caso da parte do PC, que se alie temporariamente com o seu inimigo de classe com vista a ultrapassar uma muito difícil, única e temporária situação. Que “frentise” com claros e límpidos objectivos, escalonados no seu âmbito e no seu tempo.
O puto Louçã anda há uns meses, assim que acorda de manhã, com aquela mania: hoje vou roubar 3 militantes ao PS. O puto Louçã também não leu os clássicos mas é natural, ainda não estão publicados e digitalizados nas diversas bibliotecas on-line e, que se saiba não há e-learning no FaceBook. O puto Louçã tem que saber distinguir uma coisa básica para os trotskistas que é a definição de inimigo principal sob pena de passarem a considerar afinal, Stalin um gajo porreiro. Desde que entrou nesta coisa da democracia parlamentar o rapaz anda com os conceitos baralhados. Mas surpreende-me a falta de visão e de estratégia nacionais em favor de uma lógica de aparelho. Na minha inocência e ignorância pensava que era uma atitude politica enterrada desde, para ser razoável, o fim dos anos sessenta. Mas enganei-me mais uma vez. Este já longo palavreado vai levar os leitores a pensar que serei um indefectível PS e que amo os inefáveis Lellos e Canas que têm aquele slogan — Largo do Rato forever. Enganam-se, aliás devo dizer que a única vez que fui despedido de um emprego foi pelo PS há já um par de anos. Vejam lá se acordam porque, até por uma questão estética, não me apetece ligar a televisão e levar com a cara da dirigente do PSD em mais uma conversa com os tios.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Auroville 3


Esta árvore convida a viver aqui!

domingo, 23 de agosto de 2009

Auroville 2


O modelo de cidade ocidental, grandes conjuntos de ruas, grandes conjuntos de prédios, grandes vias de trânsito, num sítio dorme-se, noutro trabalha-se, vagas de cidadãos que se deslocam numa direcção a uma dada hora e, mais tarde depois de um dia de actividade e almoços de pé, deslocam-se na direcção contrária, ralos e parcos espaços verdes, este modelo não é o modelo de Auroville. Aqui o espaço projectado para 50.000 pessoas desenvolve-se em forma de galáxia com vários ramos de espiral onde coexistem a zona residencial, a zona internacional, a zona industrial e a zona cultural. Não há espaços verdes, isto é, a cidade está dentro da floresta, as confrontações respiram, os parques são apenas zonas de floresta ainda mais densa. Há comunidades onde o vizinho mais próximo está a alguns quilómetros. Noutras zonas a densidade é maior mas humana.
"Our home, this forest, with its thousand cries
And the whisper of the wind among the leaves
And through rifts in emerald scene, the evening sky,
God's canopy of blue sheltering our lives…"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Auroville 1



Tenho saudades de Auroville. Saudades de um território que, há 40 anos era um planalto seco, erodido, escalavrado pela monção, rocha nua sonhando com verde. Esta cidade (não sei se lhe posso chamar assim), este modo novo de vida a pensar num homem igualmente novo nasceu da visão de Sri Aurobindo, pensador e poeta indiano, e de Mirra Alfassa, La Mère, sua discípula. O projecto Auroville – cidade universal em construção, desenvolve-se no Tamil Nadu junto a Pondicherry uma antiga colónia francesa na costa do Coromandel no Sul da Índia, 160 quilómetros a Sul de Chennai.
Diz a Carta de Auroville:
“Auroville quer ser uma cidade universal onde mulheres e homens de todos os países possam viver em paz e progressiva harmonia independentemente da sua crenças, políticas e nacionalidades. O objectivo de Auroville é o de realizar a unidade humana”. Hoje, o território recuperou a floresta tropical antiga graças ao trabalho incansável dos pioneiros que, desde 1968, têm plantado milhões de árvores.
Arquitectura inovadora, políticas de sustentabilidade, invenção de novos materiais, educação sem limites são, entre outras, algumas das actividades que informam e alimentam, desde o início, este projecto. No ano passado passei alguns meses nesta cidade num sítio chamado Sri Ma, junto ao Golfo de Bengala, numa extraordinária casa de um italiano, Daniel, que vive em Auroville há cerca de vinte anos. Esta casa foi atravessada pelo tsunami em 2004. O mar entrou, levou a mobília, os objectos e as roupas, voltou a sair deixando a casa despida. Uma estátua de Vishnu sorvendo o oceano, uma das imagens da mitologia hindu, foi encontrada, de pé, encravada entre os troncos das palmeiras. Daniel desfez-se imediatamente da estátua...pero que las ai, ai!
Fotos site Auroville.org

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O templo do contrabando

Abriu em Goa o templo do contrabando. É um museu que dá a ver os objectos de grande valor, recuperados pelas autoridades bem como as técnicas, sistemas e truques com que os contrabandistas tentaram enganar as alfândegas indianas nas últimas décadas.
Seria um exemplo a seguir por Portugal, não no campo dos objectos artísticos desviados (só nos roubam a já pouca arte sacra que resta), mas no domínio das técnicas e sistemas da fraude financeira e económica. Temos aí um vasto campo e até podemos ser inovadores nesta museologia. Proponho então construir em Oeiras ou no Funchal um grande espaço cultural e pedagógico que evidencie os modos de por exemplo ser administrador de um banco e desconhecer o que lá se passa, de montar uma off-shore transparente e intocável, de fazer desaparecer milhões de euros e não ser possível encontrar o seu rasto. Este “templo dos vigaristas” não seria apenas um espaço cultural morto e de observação. Ele proporia formação avançada a candidatos seleccionados. Esta parceria entre os Ministérios da Cultura e das Finanças desenvolveria pós-graduações em “Vá para um off-shore cá dentro”, “Assine à confiança documentos inexistentes”, entre outros. Estudaria, com outros museus congéneres, pós-doutoramentos em Pirataria internacional, Ajuda Desinteressada aos Países em Vias de Desenvolvimento e Redesign de ONG (organizações não governáveis). Para o lançamento do projecto proponho a deslocação a Goa, para a realização de vários seminários, das dezenas de técnicos altamente especializados na área.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Rituais védicos de lusco-fusco 2


E fazem-se ao caminho por muito tempo. Um grupo segue os cursos de água, outro o perfil das montanhas. Percebem que é uma terra fértil, engordam homens e animais. Há tantas gerações que caminham que talvez tenha chegado o momento de assentar as palavras e os ritos coleccionados. Os xamãs, olhando os astros concordam que o local é propício. Acampam. Invocações prolongadas são feitas ao Sol, à Lua, aos ventos frescos do Norte, às águas poderosas dos rios. Tudo parece conforme com a coisa cósmica. Resolvem ficar. Inventam alfabetos e habitações precárias, fabricam utensílios próprios de gente sedentária. Com os outros habitantes da planície trocam mais intensamente línguas, costumes, invocações, afectos. Fixam em longos e sonoros textos de rigorosa métrica o que sabem do Mundo, o que lhes foi revelado na busca incessante dos caminhos do mito. Através de sacrifícios abrem uma porta de futuro que ainda hoje se não fechou.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Rituais védicos de lusco-fusco 1


Imagino clãs em deslocação, atravessando a planície indo-gangética com rebanhos e parcos pertences. Na cabeça dos xamãs, uma parafernália de material “sruti” (revelado): mantras, invocações, entidades naturais aliadas e inimigas, sombras e penumbras que apoquentam o ser, ameaças de regresso ao fim da noite dos tempos quando todas as coisas regressam a Brahma ou, pelo contrário, auroras radiosas quando tudo é devolvido à luz e o novo dia começa, e a busca incessante e calma continua. Imagino pequenos objectos de madeira, produto do mais escrupuloso e ióguico projecto de design industrial duma qualquer Bauhaus com sede em Meru; pequenos objectos de oferta do fogo ao fogo, da água às águas exangues de um Ganges que ainda não se chamaria assim, de oferendas de manteiga para temperar os cogumelos - Soma que tornam líricas e atormentadas as invocações de deuses sem silhueta. Imagino o mistério quando, no auge da monção, um relâmpago incendeia a pradaria e Agni, soprado por Vayu, empurra esta caravana para terras e abrigos impuros, causando consternação e profunda tristeza nos clãs. Imagino a invenção de mantras e a recordação de outros tão longínquos que o som se materializa em quadrado desenhado no chão e o Oriente é propiciador de purificações demoradas e sentidas. Imagino a inquietação dentro das auroras prolongadas, no limbo dos crepúsculos misteriosos, quando o Sol se faz Lua e os animais se aquietam mortalmente. Imagino que atravessam um rio e que o povo amedrontado paralisa a sua marcha até que o Sol volta a viver e ninguém sabe para onde foi a Lua e os pássaros gritam de novo.
Imagino que se cruzam com muitas outras gentes, com muitas outras línguas que acampam longe mas suficientemente perto para mostrarem os cavalos e as vacas espantando autóctones dravídicos que, por sua vez, inventam também novos rituais. Purificam-se quando chegam, purificam-se quando partem e escrevem na memória novas palavras, novos ritos, novas formas de protecção. E fazem-se ao caminho.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Homenagem tardia a R. das Gupta

Jornada a um lugar de passagem, tirtha yatra, é, no hinduísmo, o conceito clássico de peregrinação. Esta noção de tirtha significa ainda, o atravessamento, depois da morte, do rio imaginário Vaitarani que corre entre a terra e o mundo subterrâneo, governado por Yama, o deus da morte.
Ou a barca do inferno e a barca do céu em Gil Vicente e os vários rios que correm para oceanos de transcendência em várias culturas.
O professor das Gupta foi cremado nas margens do Ganges, em Varanasi, a sua cidade, depois de ter abandonado há muitos anos, o Bengaladesh.
Na cidade da luz, das Gupta, hindu, ensinava a arte e os rituais dos Gregos e dos Romanos e uma extraordinária cadeira chamada Arquitectura Indo-Islâmica, com uma paixão nos olhos transparentes igual à luz do Taj Mahal. Ser cremado em Banaras significa, segundo a mitologia hindu, não voltar a renascer, libertar-se deste ciclo infindável de transmigrações e de sucessivas purificações do karma. O karma de das Gupta já era tão puro que mesmo que tivesse sido cremado noutro sítio, iria directamente para o território das almas limpas. Namasté das Gupta ji.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Carta aberta ao Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros

A minha amiga russa, Ana e o seu filho, não me podem vir visitar. Eu estou sedentário dentro da fortaleza Schengen, a minha amiga russa, vive em Auroville na Índia. Estava a viajar pela Turquia e decidiu vir até Portugal. Informei-me no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras dos documentos necessários e, tenho pronto para lhe enviar, um Termo de Responsabilidade, apesar da sua assaz confortável conta bancária. O Consulado português de Esmirna não lhe concede o visto com o argumento de que não é residente na Turquia e, assim sendo, deve solicitar o visto na Índia que é o seu actual local de residência. Coisa prática e bastante exequível como se compreende! Se não fosse a nossa europeia configuração facial, diria que esta cena se passava na Coreia do Norte e que o regime acharia que a minha amiga russa era espiã ou emigrante económica que iria colocar no desemprego um zeloso funcionário do Partido. Não tendo os olhos amendoados pergunto como é que ainda há turistas que visitam a Europa? Assim sendo e para honrar a "segurança" e a "integridade" do espaço concentracionário Schengen, serei eu a visitar a minha amiga russa na Índia ou em qualquer outro país fora do bunker. Não posso terminar sem me congratular e dar uns vivas a esta fortaleza europeia que nos protege dos estrangeiros malfeitores e, possivelmente, terroristas. Parafraseando outro "querido" que mil outros espaços Schengen floresçam.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Comunicação visual 3


Agora que se aproxima um tempo insuportável de venda de políticos, sugiro este estilo monumental para quebrar a monotonia e combater a crise. Imaginem a Dona Manuela de sari a rasgar a casta dos banqueiros ou o Doutor Paulo com uns óculos escuros como se vê na imagem, à porta de mais uma deslocalizada multinacional de relógios.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Democracy's Failing Light


Aponto para este pertinente e objectivo ensaio da escritora Arundhati Roy sobre o estado da democracia na Índia. Ler e reflectir.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A estética das civilizações sentadas


Gestos fluidos, roçagar de panos imateriais.
Recortes no ar das mãos do Tao.
Ligação braço, pulso, mão, em osso frágil
como quem desenha.
Forma tão solta: os contornos andam no ar até que
a figura se materialize na postura ancestral do animal mitológico.
O tigre sai da montanha e o elefante espera.
Acocoramentos na cozinha à volta das frigideiras
em jogo do pau e o forno é terra.
Floreados de legumes como em Angkor Wat.
Pelas praças calcetadas a negro basalto e branco luz,
deslizam azuis sazonais e nostálgicos.
Donde terá vindo esta árvore tão exótica
que motiva esta intercepção textual como quem vai ao cinema.
Não sei porquê recordo Dien-Bien-Phu e a paciência
estratégica do povo de Hô-Chi-Min. Imagino o silêncio,
a camuflagem, a progressão lentíssima, a alimentação precária,
o sono sobressaltado debaixo dos jacarandás,
ou, pelo contrário, o general Giap de camuflado azul,
tentando passar despercebido na Praça do Correio-Mór e,
de seguida, tomar de assalto a Sé de Lisboa
sem armas nem canhões, de mãos nuas.

Sei porque recordo o meu Mestre Nguyên Duc Môc que
me ensinou o pássaro e o peixe dentro de nós,
a ilusão do corpo, uma espécie de aura
onde não estamos e, dizia-me:
-podes ser dragão.
Quando o sémen da papaia se gruda
na folha verde luxúria, na folha verde
que estremece apenas e, tumescente, escorre
pela mão aberta e curiosa, só então se entende
o desenho dos telhados dos pagodes,
revirados para o centro, para que a energia se não escape.
E a mão-folha, cola-se à polpa dos dedos
como quem experimenta e, sob os olhos adolescentes,
desfila o futuro do corpo.
As figuras de pedra de seios amputados
pela iconografia proscrita, observam o tempo desse olhar.
Lentamente, sabendo do fogo e dos véus.
Tantos homens passaram por aqui. O que disseram?
Alguns afagaram com mãos de pedra um sorriso antigo
à beira das estátuas, no abismo das civilizações e,
com a morte na boca, prosseguiram.
Outros perderam-se nas areias movediças
das cidades soterradas. O sangue
dos camelos empapou as planícies amarelas.
Fez-se verde pela madrugada. Brotou o grão.
Outros, tantos e tantos, cegos, tactearam
os templos e as árvores, o fruto e o texto,
a febre e o Sol. De nada lhes serviu.
Riram-se, quando ouviram a história do monge
aprendiz que não conseguia meditar.
— Jovem, tinha sido entregue aos cuidados do mosteiro.
Nem o frio nem a disciplina férrea da casa conseguiam
quebrar a irreverência e a energia inesgotável de Dilip.
O seu Mestre desesperava. Não conseguia obter dois minutos
de concentração do pupilo, mente ausente, olhos nas águias.
Era incapaz de ficar em silêncio,
de se concentrar no lótus. Todos os exercícios foram em vão.
Uma tarde, o Mestre chamou-o e disse-lhe:
— Na tua aldeia de que é que gostavas mais?
— Da minha vaca Mestre, gostava tanto da minha vaca!
— Pois bem Dilip, vai para a tua cela e tenta meditar na tua vaca!
Três dias depois, toda a gente estava preocupada.
Dilip não voltara a aparecer nas aulas
e foram à sua procura. Encontraram-no na cela
com um ar pálido e ausente em profunda meditação.
O Mestre falou com ele dizendo-lhe para sair,
ir comer e jogar. Dilip respondeu: — Não consigo Mestre,
os cornos não cabem na porta!—

As figuras de pedra, observam.
Já pariram árvores que sustêm rituais.
O Mundo equilibra-se sobre os calcanhares.
Deste ponto de vista ao nível do umbigo, escolhe-se o lugar
e o tempo, constrói-se o quadrado primordial,
consulta-se as estrelas, mistura-se os pigmentos,
olha-se o fogo e o pranto, rasga-se o veio da madeira, é-se.
A linha do horizonte mais alta, alarga o Oriente,
aproxima-nos dos fogos fátuos, da Terra, da água-mãe.
Os rios correm mais próximos do coração
e a monção, chega rapidamente à boca.
Inunda os conceitos formais, descentra a perspectiva,
simplifica, regra, mata os códigos rígidos,
reencarna outros, afasta o olhar na tela e na mente,
repinta por ausência de cor, telas brancas sempre virgens.
Sucessivamente.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pushkar


Na areia do deserto, o quadrado de água.
Branco doce feito à mão abre-se em escadaria de sombra
sobre o som da tarde.
Fogo e corpos pintados marcam o fim do dia.
A montanha da cobra, desfaz-se da pele suada
para iniciar os rituais nocturnos.
Sobre a ponte, o colorido imaginado das caravanas de antanho.
Brahma e Savitri vestem-se de luz, o Cosmos recicla-se uma vez mais. Pushkar.

domingo, 24 de maio de 2009

Puri

Clara a linha que se traça aqui, em Puri,
entre este Oriente e este Ocidente.
Clara nos reflexos do Sol laranja
no short branco que desce a rua e os olhares
queimam a pele. No Café Harris, bancos corridos
e mesas verdes, exposição de livros na entrada,
desfilam francesas homossexuais amantíssimas,
uma mulher bonita de olhos tristes e gesto assustado,
um puto canadiano que acabou de telefonar à mãe,
vários magríssimos junkies, a que te quer comer
com os olhos e depois com os lábios,
péssimas cópias do trabalho do corpo hindu,
uma atónita família indiana, um casal
espanhol muito zangado com tudo,
várias confusões linguísticas a propósito do café black
ou não, duas ou três quarentonas à procura
da aventura final. Do outro lado da rua
desfilam os turistas indianos devotos de Hanuman.
Desembarcam aos seis de cada vez dos motoriquechós,
enchem o espaço de cor e sons agrestes.
Olhamo-nos mutuamente: o Café Harris
como mostra de produtos do Ocidente,
a porta do templo, o quotidiano deste Oriente.
É clara a linha de demarcação: apenas uma rua estreita,
paralela ao mar. A geografia confirmará
que o Café Harris se encontra do lado ocidental da rua.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gangaikondacholapuram


A paisagem parou no meio da batalha do imperador Radjaradja com as tribos da montanha. A nuvem de poeira começava a assentar
e, no horizonte amarelo, desenhava-se, lentamente, o templo de
Gangaikondacholapuram. A sombra das acácias refazia-se no solo, a pedra do templo avermelhava a tarde.
O imperador despiu a armadura, surpreendido por não estar a ser assistido nesta operação pelos seus escravos, ainda para mais tendo ganho, supunha ele, a batalha.
As pesadas peças de protecção do corpo, a espada e o elmo
descansavam na poeira. Radjaradja, olhou em volta,
chamou os capitães, os criados. A voz ecoava na pedra
de Gangaikonda juntamente com o coro desafinado
de corvos e macacos. Percebeu que estava só e,
que o templo que agora via, apenas o tinha imaginado
antes da batalha, não podia estar ali.
Contornou as pedras, subiu os degraus,
confrontou-se com Surya e Vixnu nas paredes laterais.
Voltou a chamar os seus capitães e gritou bem alto
pelos criados, mas nada. A voz reverberava nas pedras
como um mantra infinito e recorrente.
Radjaradja sentou-se e resolveu meditar
como lhe tinha ensinado o seu mais querido mestre.
Concentrou-se na respiração e no mantra,
inspirou, expirou, inspirou...a batalha estava brava,
o suor toldava-lhe a visão.
Conseguiu apenas adivinhar o silvo de uma flecha
e uma dor lancinante atravessou-lhe a garganta
impedindo-o de gritar. Os olhos pararam a paisagem
e o silêncio invadiu os horizontes de Gangaikonda,
enquanto a pedra vermelha se desfazia em pó
lento e inexorável e as estátuas desapareciam
diante dos olhos já líquidos do imperador.
Um século mais tarde, no local da batalha, iniciou-se a construção
difícil e demorada de Gangaikondacholapuram.
Várias equipas de canteiros abandonaram o local
ao longo dos anos em fuga aterrorizada.
Diziam ouvir mantras dentro das pedras
e uma respiração cadenciada como a de quem medita.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A lenda de Kamakhya


Kamakhya é um complexo de dez templos que representam outras tantas formas da deusa Parvati, companheira de Xiva e situa-se em Nilachal, a montanha azul, perto de Guwahati a capital do Assam. Eis a lenda:
A consorte de Xiva, Parvati, travou uma discussão conjugal
a propósito da festa que seu pai ia dar nos próximos dias
e para a qual Xiva não tinha sido convidado.
Dizia Parvati que não precisava de convite para assistir
a um sacrifício a efectuar na casa de seu pai
e que Xiva, sendo seu marido, devia acompanhá-la.
Orgulhoso, Xiva insistia que sem convite nada feito
e que proibia a sua mulher de ir e que aquilo era uma afronta
do sogro e que era assunto encerrado.
Parvati repetia que com ou sem autorização do marido iria
à festa de qualquer maneira ... e que não que não vais ... e que sim que vou, tu não sabes do que eu sou capaz e a discussão subindo de tom e as posições extremando-se e Parvati, como derradeiro argumento, numa dança diabólica em torno de Xiva
assume sucessivamente dez formas terríficas de outras tantas deusas.
O Ser Supremo espantado e confuso com o imenso poder da sua esposa, acedeu em deixá-la ir sozinha à festa de seu pai.
A festa decorreu animada mas muita gente presente criticou
violentamente Xiva pela sua atitude de distância e soberba
em relação aos outros deuses assim como a sua mania
da superioridade. Isto perturbou mortalmente Parvati
que não admitindo tão violentas críticas ao seu marido
na ausência deste, lançou-se na fogueira do sacrifício,
imolando-se pelo fogo. A versão tântrica da história conta que ela
se auto-aniquilou pelo poder do yoga.
Xiva, que estava em meditação profunda,
como era aliás seu costume, sentiu uma enorme perturbação e,
Omnisciente, percebeu de imediato o que se tinha passado.
Louco de raiva e de dor, transportou o cadáver
da sua amada pelo mundo fora destruindo tudo à sua passagem.
Os deuses temeram pelo fim do Universo e,
reunindo um conselho, nomearam Vixnu para pôr cobro
a tão desvairada destruição. Vixnu perseguiu Xiva e,
quando o encontrou, usou o seu terrível disco
para despedaçar o corpo de Parvati em 51 pedaços
que se espalharam pela terra da Índia.
Desde então, esses 51 lugares são outros tantos xakti pithas,
locais de culto da deusa.
No Assam, em Kamakhya nas montanhas azuis,
caiu o yoni (vagina) a parte mais sagrada da deusa da procriação,
a fonte da vida. Esta é a lenda de Kamakhya, aquela cujo nome é desejo, ou Kamarupa, a que tem a forma do amor.

domingo, 26 de abril de 2009

A última falésia antes de Gangawali

A propósito do sistema de Astrologia Naadi
O som do Tamil antigo reverberava acompanhando a batida pouca-terra, pouca-terra. Na travessia do verde para Sul, cocos e pedra, um ou outro camião na faina da areia, bicicletas suspensas de escadarias incompletas e o mar. Já o Sol caminhava na frente do comboio conquistando o horizonte quando abriu os olhos. O calor e o cansaço nem eram tanto assim mas dormira profundamente debaixo de uma lembrança de manuscritos de folha de palmeira, de palavras tão encantatórias quanto ininteligíveis, de descoberta de caminhos, de dúvidas sobre o quotidiano, de certezas sobre o Universo. Falara-se de problemas de jurisprudência, de achaques possíveis ou certos, de fins de vidas alheias e queridas e da sua própria. Numa língua musical e longínqua ouvira escreverem-se à medida do desfiar do rosário do espaço/tempo, intenções, destinos, futuros. Que misterioso elo liga uma folha de palmeira marcada com caracteres de Tamil antigo onde se constrói sílaba a sílaba um futuro reencarnado e uma cassete audio com esta história contada para reouvir, depois. Quando decidimos inquirir o que somos neste universo Naadi que energias confluem na direcção de Saraswati Mahal e de Vaitheeswarankoil e provocam escritas num alfabeto que já ninguém fala mas que se torna claro e inteligível defronte de um ler e dizer sábios. Organizam-se essas escritas à volta da marca indelével e única de um dedo em tinta azul e procuram-nos tanto quanto as procuramos. No entanto, uma palavra, um conceito, uma respiração lida diferentemente, uma intenção oculta desconhecida, podem precipitar o discurso nosso para outrem e atirar-nos para tão longe ou para tão perto do que poderia ser destino, caminho, encontro. Desde então que lhe fica uma subtil sensação de que se possa ter enganado, interpretado mal uma questão e, assim, ter vestido a pele de outro personagem, caminhante do Universo. De andar à procura de si noutro corpo, de pensar por mente alheia, de ter uma história qua não é sua mas que poderia ser sua, ou que é minha e não me reconheço nela.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Taj Mahal

Nas margens do Yamuna em Agra que foi
uma das capitais do império Mongol, o Taj Mahal,
é um monumento funerário erigido em 1634,
em memória da esposa favorita de Shah Jahan,
Muntáz Mahall (a eleita do palácio).
Ainda que o túmulo fosse a principal razão de ser
do monumento, ele ocupa apenas uma pequena parte.
A implantação total desenvolve-se num espaço
rectangular de 570x300 metros cuja área central é
constituída por um jardim quadrado com 300 metros de lado. No extremo sul do rectângulo, uma infra-estrutura de serventia, na ponta norte,
o túmulo em mármore branco olhando, sobranceiro, o rio.
Todo o jardim e o terraço norte, estão envolvidos
por altas paredes donde sobressaem, em cada canto,
pavilhões octogonais e uma monumental porta de entrada
no centro do lado sul. O conjunto comporta ainda estábulos,
pátios, pequenas casas e um bazar bem como,
enfrentando o mausoléu, dois edifícios idênticos:
uma mesquita e uma resposta (jawáb).
É notável a complexidade do projecto. A arte de construção
praticada pelos Mongóis não permitia emendas
nem alterações de última hora o que pressupõe uma total planificação prévia da obra.
O desenvolvimento arquitectónico e a localização sugerem
que a aproximação do mausoléu poderia ser feita
quer por estrada, quer de barco.
permitindo em qualquer dos casos, um desvendar progressivo do Taj.
A beleza do conjunto repousa, contudo na completa lucidez
e coerência do efeito arquitectónico externo.
Perfeita proporção, simplicidade, fluidez das partes componentes
e qualidade do material usado na construção.
Com efeito, o mármore de Makrana é de tal natureza que
permite subtis variações de cor e tonalidade consoante a hora do dia.
Admirá-lo ao meio-dia branco e agressivo de luz, tão intenso e poderoso,
apercebê-lo numa noite de lua cheia e tocar o mármore
branco pérola ou visitá-lo quando o dia acaba e o poente
indiano escorrega lento e rosado, pelas paredes.
.

domingo, 19 de abril de 2009

Jaiselmer

Deserto do Thar, encravado entre a Índia e o Paquistão.
Fronteiras nebulosas de areia dançam na linha do horizonte
embriagado de calor. A planície ganha dimensão mítica à medida
que avançamos nesta recta interminável de asfalto,
a caminho de uma cidade que nos garantem que existe.
Autocarro indiano, “super de luxe”.
Nos altifalantes, o último “hit” de Bombaim, muitos decibéis acima
do que pensaríamos ser suportável. Os olhos invejam a paleta de cores que veste os clãs do deserto, os brincos e pulseiras de velha prata, os turbantes, o gesto decantado e apenas essencial, o sorriso.
Cada paragem ao longo da estrada, refresca a cor e
o som interiores deste autocarro cinematográfico:
vermelhos que vibram imóveis e silenciosos;
coxia inundada de texturas de pano, barba negra, olhos brancos,
vivos de ouro pontuando a silhueta; mãos tatuadas
de significantes antigos de fertilidade e protecção recortam,
no ar, a palavra.
A luz reverbera. O olhar semicerra-se ainda mais.
Súbito, o deserto organiza-se em colina-cidade amuralhada
e compacta, ocres construídos, rendilhados de sombra: Jaisalmer.
No passado, cruzavam-se aqui as rotas das caravanas
que comerciavam entre a Índia e a Ásia Central.
A cidade enriqueceu e desenhou arquitecturas douradas
de calcário finamente esculpido. O crescimento do comércio marítimo
e a consolidação do porto de Bombaim, levaram a cidade ao declínio.
Mais tarde, a separação do Paquistão, o encerramento das estradas
de comércio com este país após a II Guerra Mundial e secas persistentes, pareciam condenar Jaisalmer ao desaparecimento.
Nos anos 1965 e 1971, com o eclodir das guerras Indo-paquistanesas,
foi reconhecida a importância estratégica do sítio
o que proporcionou a construção de novas estradas,
a electrificação e a ligação via férrea com o Rajastão e,
deste modo, com o resto da Índia.
Deixar-se ir atrás dos turbantes coloridos pelas ruas de pedra
sobre pedra, ocre amarelo sobre ocre amarelo,
onde só a profundidade dos volumes e sombras
dá visibilidade às formas; seguir as braceletes infinitas
nos braços da mulher cor de anil; acocorar-se para tomar chá
na loja obscura e fresca, cheia de luz do jornal do dia;
sentar-se e observar o olhar ruminante dos camelos,
passo de dança, carga pesada, incontáveis trilhos no caminhar.
Cidade circular e murada, projectada por arquitectos alucinados
que desenharam a pedra como tecido fino.
Na austeridade do deserto, a luxúria da escultura ofende o olhar.
Cidade táctil, paredes adoçadas pela mão e pelo vento, gente amiga.
Jaisalmer está organizada em dois pisos.
No andar de baixo, a troca, o mercado, pequenas lojas e bazares,
o barbeiro, peles e curtumes, joalharias, tapetes e mantas,
os Correios e a Administração Pública.
No andar de cima, mais pequeno, o sagrado e o senhorial.
É aqui que se situam as grandes casas, os templos Jainístas e Hindus
e o poder do olhar sobranceiro e em todas as direcções,
sobre a plana paisagem do deserto.
Encostados às paredes exteriores da cidade, as castas intocáveis,
os “filhos de Deus” de Ghandi, os ofícios impuros dos trabalhos
das peles dos animais, os ofícios da morte.
Nos rostos, a tensão calma da sabedoria do deserto
e o caminho das estrelas que, à noite, explicitam o saber medieval
de que a Terra é, de facto, o centro do Universo.
Perder-se em Jaisalmer é escrever, da porta dos Correios,
postais aos amigos; cola branca e espessa que
cola os dedos à paisagem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Kolkata


Calcutá é um restaurante no Bairro Alto
de Lisboa onde os onion bhadji são bastante aceitáveis
mas é também uma cidade com a maior feira
do livro do Mundo.
Nela as estações de metro estão periodicamente inundadas
e pode-se tomar café em tertúlias tranquilas onde,
a todo o momento, Rabindranath Tagore pode entrar
pela porta, sentar-se na nossa mesa e discutir literatura e filosofia.
Calcutá é a outra cidade do cinema:
Bombaim produz Hollywood, Calcutá produz Cannes.
Kali reina em Calcutá e subverte os valores da morte
e da vida transtornando as cabeças racionais organizadas.
Desconhece-se se os onion bhadji de Calcutá são melhores
que outros quaisquer mas, em contrapartida,
sobre o rio Hughly, debruça-se a Ponte. Howrah é uma ponte
e uma paragem no tempo.
Quem esculpiu este ferro/animal?
Se por baixo de todas as pontes deslizasse um rio
honesto e farto como este filho do Ganges
a nossa relação com a geografia seria mais rica e,
as fortificações que se adivinham nas suas margens, ganhariam
foros de ruína patrimoniada e classificada.
Imensos peritos desceriam o rio em barcos
com bandeiras e espingardas, desassossegando búfalos e garças,
tomando notas, acenando, rosnando baixo contra os mosquitos,
classificando, inventariando, registando, digitalizando as pedras,
as arquitecturas. Felizmente que a alma desses lugares flutuaria,
agarrada a algum tronco destroçado de banian e, docemente,
sem murmúrios, desembarcaria no mar largo do golfo de Bengala
para não mais ser vista ou lembrada.
É Howrah que sabe todas estas histórias e,
quando a atravessamos, numa tentativa vã de unir margens
e fragmentos e partidas e abraços, sábios que do Mundo sabem,
quando a atravessamos, esta metrópole suspensa do ferro e da arte,
do grito do corvo e do riquexó, esta ponte nada nos diz
e o rio fica longe, lá em baixo, aparentemente parado.
Que silêncio!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Códigos

O que nos leva a nós, estrangeiros, a viajar para este lado do Mundo?
Há quem traga um par de sapatos para a andar na rua, outro para visitar os templos (onde só se pode caminhar descalço), um par de meias para casa outro para entrar nas lojas, desodorizantes e repelentes de mosquito perfumados, muitos sabonetes anti-bactérias, anti-eczemas, apenas anti.
Há quem tome banho com água filtrada e só coma omoletes.
Há quem não consiga sair do hotel, porque o cheiro é “insuportável”, e é difícil enfrentar a multidão que nos toca.
Muitos dormem com tampões nos ouvidos. Vêem a Índia como um filme estrangeiro sem legendas e sem intervalo e a incompreensão é total.
A rua é o centro do caos e não conhecemos os códigos.
Transportamos para o Oriente, quando o visitamos, uma carapaça supostamente imune a doenças, sons, línguas, gestos, toques, atitudes, religiosidades.
Essa carapaça tem apenas um orifício por onde fazemos passar a máquina digital e capturamos grandes clichés para rever nos écrans dos nossos computadores (alguns deles desenvolvidos por engenheiros indianos).
A rua é o centro da ordem e não conhecemos os códigos.
Árvores sagradas, pequenos ícones, taças de barro cru, pedras/falus, pigmentos, bagos de arroz, templetes, paus de incenso, a postura, o gesto da mão, o sim/não com a cabeça, os sinais no trânsito em mão/mudra. Códigos que nos passam ao lado mas concluímos certamente com certezas certeiras que: e sai lugar-comum e adoramos ter euros para trocar por rupias negras em mercados de todas as cores.

sábado, 4 de abril de 2009

Alquimia do desejo

Acabei de ler duas magníficas obras de Tarun Tejpal. Tarun é editor-chefe da revista Tehelka, tem um notável curriculo na comunicação social indiana e é escritor. Do seu livro A Alquimia do Desejo disse Naipul que estava a ler, finalmente, algo de novo na moderna literatura indiana. A Alquimia do Desejo é uma história de dois seres profundamente apaixonados que decidem comprar uma casa na montanha por via de uma herança recebida e, simultaneamante, o autor visita a história recente da Índia apresentando um fresco magnífico de relações, movimentos históricos, política e reflexão interior.
A outra obra de Tarun Tejpal, A História dos meus Assassinos, baseia-se num facto plausível para penetrar na Índia desconhecida e invisível. Trata-se de alguém que recebe uma comunicação da polícia alertando-o para o facto de que está em curso uma tentativa de assassinato contra a sua pessoa. A partir daqui constrói-se o possível perfil do assassino mergulhando em zonas interditas e perigosas. Não sei se haverá tradução portuguesa prevista mas recomendo vivamente aos leitores de inglês. Remeto-vos para o sítio do autor TARUN TEJPAL.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fatehpur Sikri

Entramos numa cidade sem rugas,
protegida pelo tempo, adoçada pela monção.
Basta fazer um pequeno esforço
para que cheire a jasmim,
para que se ouça o ritmo da água na pedra,
para que os panos coloridos, palco de conversas,
se encham de música. É a cidade de Akbar,
o imperador que não sabia ler
nem escrever mas que era, seguramente,
um dos homens mais cultos do seu tempo.
Erigida no século XVI, 40 quilómetros a oeste
de Agra no actual estado de Uthar Pradesh, Índia,
Fatehpur Sikri, a nova capital, é o mais ambicioso projecto
do reinado de Akbar e constitui, a seguir ao Taj Mahal
o melhor exemplo do estilo arquitectónico Mongol.
Imaginemos uma cidade sem ruas
mas apenas com pátios, terraços e praças
onde se desenvolvem, rivalizando entre si,
numerosos palácios e edifícios administrativos,
em sinfonia de calcário vermelho
com um andamento arquitectónico que comanda
espaços interiores e exteriores, configurando-os
em mosaico integrado dos estilos mais importantes
da Índia da época.
Para erguer esta nova capital num curto espaço de tempo,
um exército de artesãos foi mobilizado e
dado que as “corporações” locais
não estavam habilitadas a fornecer mão de obra
suficiente, um grande número foi trazido
dos longínquos domínios do reino de Akbar.
Cada um destes grupos trouxe consigo o seu próprio idioma
arquitectónico daí que seja possível identificar
as mais importantes escolas, a do Gujurat e a do Punjab.
É claro, no entanto, que a obra teve a supervisão
de uma figura a que hoje chamaríamos arquitecto-chefe
que velou pela uniformização e equilíbrio do conjunto
construído. Por esta altura os mestres pedreiros
teriam já assimilado os ideais do seu real patrono,
dado que esta arquitectura contém todos os elementos
de um estilo em plena maturidade.
A colina de pedra onde nasce a cidade
desenvolve-se na direcção nordeste-sudoeste mas,
a maioria dos edifícios, estão construídos na direcção norte-sul,
em concordância com a orientação da Jami Masjid,
a grande mesquita.
Entrava-se em Fatehpur Sikri pela porta de Agra
e os visitantes distintos eram anunciados na Naubat Khana,
a casa do tambor. Daí seguia-se directamente para o Diwan-i-am,
fórum da audiência pública onde era permitida
a admissão a toda a gente.
Por detrás, uma área reservada aos palácios da família real
rodeada de escritórios, celeiros, jardins ornamentais,
estábulos e outras construções utilitárias.
Entremos secretamente nesta área proibida,
para assistir ao jogo do galo executado em performance
de figura feminina, no terraço em frente da casa do astrólogo,
pelas concubinas do harém de Akbar. Trajes e véus coloridos
evoluem no reticulado do chão em movimentos lentos e sensuais.
Perto, o fluir da música indiana reverbera nos pátios
e nos rendilhados da pedra e penetra
nos palácios das imperatrizes. Sigamos a música
e a voz de Tánsen, o famoso cantor hindu da corte de Akbar.
Chegamos ao palácio de Miriam, escrava cristã arménia
que desposou o imperador e surpreendemo-nos
com a decoração interior. Grandes murais pintados
com motivos e técnica persa, anunciam a célebre escola de pintura
que se desenvolveu durante o reinado de Jalálu-d-din Akbar.
Mais longe o palácio de Rumi Sultana, a rainha turca,
ricamente esculpido: pedra trabalhada como madeira;
arte e tradição dos artistas do Punjab.
Khwabgah, o quarto de dormir do imperador,
dispunha de uma tina alimentada por uma conduta de pedra
donde fluía, em permanência, água de rosas. Do seu quarto,
partia um intrincado sistema de passagens secretas
para os aposentos das rainhas. A mais notável
peça de arquitectura secular de Fatehpur Sikri é,
no entanto, o Diwan-i-khas, o salão da audiência privada.
É uma estrutura rectangular ampla,
com uma enorme e profusamente trabalhada coluna central.
O seu capitel suporta uma plataforma circular em pedra
donde irradiam pontes também de pedra
ao longo de cada diagonal, que se ligam a galerias suspensas.
O imperador, “senhor dos quatro pontos cardeais”,
sentado no seu trono na plataforma, escutava as polémicas
político-religiosas conduzidas pelos líderes
das várias comunidades que se reuniam no Diwan-i-khas.
Esta prática, tolerante e eclética representava
um importante papel na sua política de integração
das várias culturas do seu império.
Sulah Khul, paz com todos, a máxima de Akbar
que sintetizava essa estratégia.
O conjunto religioso da cidade é composto pela grande mesquita,
e pelo túmulo de Salim Christi.
A grande mesquita, estrutura rectangular com 162x131 metros
perfeitamente simétrica, é uma das maiores de toda a Índia.
25 anos após a conclusão da mesquita, Akbar regressou
vitorioso das campanhas do Decão e decidiu construir um arco triunfal.
Nasceu, na parede sul da mesquita uma imponente peça arquitectónica,
encimada por pequenos quiosques, a Buland Darwasa ou
Porta da Magnificência. Contrastando com esta imensa arquitectura
de pedra vermelha, o túmulo de Salim Christi leve e efémero,
flutua, barroco, antecipando o futuro material de construção
da dinastia Mongol: o mármore.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Geografias

Caros leitores/comentadores deste blog em peregrinação por terras da Índia:
Primeiro que tudo obrigado por me lerem. Não tenho respondido aos vossos comentários talvez erradamente, não sei.
Por razões várias vou antecipar a minha viagem de regresso. Esta Índia que me visita há vinte anos vai ficar de novo, suspensa. Tenho na bagagem alguns textos que gostaria de publicar ainda que, a ausência de geografia da net, possa convencer os leitores/comentadores de que continuo debaixo de uma jaca a comer pakoras quando, na realidade, já estarei num café em Lisboa. Uma vez esses textos publicados o que fazer com este blog? Mantenho o espaço com outras características? Fecho-o? Aceito as vossas sugestões. Obrigado.

domingo, 22 de março de 2009

Ganges


O bronze e o bordão, ritmam o espaço próximo do açafrão suado na descida para a água.
É a hora da madrugada. Pequenos sóis despontam em archotes de manteiga. Camas de fogo onde repousam flores, cinzas, as almas dos peregrinos.
Danças de mãos em concha restabelecem laços mitológicos. Sobre a água, rituais de panos e corpos molhados ligam o Cosmos às bocas. Preces silenciosas saturam as paisagens ribeirinhas e os corvos riscam desenhos de dor. O sândalo, incendeia-se em libertação para não voltar a renascer.
A pancada no crânio inicia o caminho da alma.
É ainda a hora da madrugada.
Da varanda sobre o Ganges irrompe o disco solar imenso, incansável, poderoso. É a hora barroca. Começa mais um dia na cidade da luz.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Kashi, Banaras, Varanasi – última parte

Camadas do nosso self que pairam no ar à nossa volta
e perturbam a visão e o discernimento deste real;
camadas que precisamos de apagar para poder ver,
entrar em comunhão com o real, fazer darshan, como um hindu que,
ao visualizar a divindade passa a ser a própria divindade.
Em Banaras, quando se olha o Ganges, rio sagrado,
cemitério de vacas, homens santos e crianças, que aqui corre de Sul para Norte ao contrário dos outros e do resto do seu percurso, quando se olha este rio que, imagine-se, tem golfinhos, não se entende como tanta gente toma banho ritual e saúda as águas em preces silenciosas e tão simples.
Na nossa terra o Sol põe-se do outro lado do mar.
Aqui, nasce do outro lado da água.
Quando este Sol doura as escadarias de pedra e, a imponente arquitectura que bordeja o rio faz luz nos olhos dos peregrinos e conquista a sombra da morte, aí percebemos Kaxi a luminosa, onde se vem morrer para não voltar a renascer.
Todos os dias Banaras renasce diante de nós surpreendentemente e, todos os dias, outras camadas se interpõem entre os nossos olhos e a luz. Todos os dias os corpos se desmaterializam lentamente no fogo das cremações e a construção do vazio, faz-nos pensar. Namasté Banaras, perante ti...inclino-me. Agora vou deixar-te, penso que pela última vez, depois de uma ensurdecedora corrida de táxi até ao Aeroporto de Baratpur e dentro, guardo um banco de imagens e de sensações. Muitos momentos irrepetíveis, telas sucessivas do mais puro expressionismo, mostruário da vida e da dor, lições de paciência e uma mistura dilacerante de alívio e saudade.
Sei que ainda te envolvem muitas camadas de outros reais mas
fico por aqui. Corre-se o risco, neste lugar, de ficar
para sempre à procura de entender.

terça-feira, 17 de março de 2009

Vêm aí as russas

Dá, dá...spaciba, spaciba!Tovarich já não se ouve. Não estão a ver umas belas, brancas e grandes russas, cheias de anéis de ouro e biquínis à moda com boum boum escrito nas nádegas, tratar por camarada a sua sócia do bordel russo aqui de Candolim. A gerente da esplanada pergunta se querem lobster. “Ó matche?”, pergunta Pedro o Grande. A gerente repete que é em dólare. “Ó matche?”. Tragaláalagosta, presumo que foi dito. Por todo o lado se ouve falar, fumar e beber russo. Não fora a temperatura da água diria que estávamos no Cáspio. Há lojas aqui na zona com a sinalética informativa já em alfabeto cirílico. Os habitantes de Goa manifestaram-se recentemente contra a aquisição de propriedade por estrangeiros. Deve-se isto ao facto de uma grande quantidade de terras e casas estarem a ser adquiridas com dinheiro duvidoso por nacionais russos. O grande mercado sexual aqui em Goa é a prostituta russa. Para os indianos o máximo é passarem uns momentos na cama com uma mulher russa ainda que tenham que pagar em moeda estrangeira. Elas já fazem o “trottoir” ou, melhor dito, a terra batida, aqui na zona. Os chulos russos são um verdadeiro estereótipo: dois metros de altura, dois de largura, cabeça rapada, uma grande barriga. Está esta costa de Deus entregue à perdição, dizem os padres do seminário de Rachol. Não há crucifixos nem velas suficientes a arderem nestas igrejas que protejam os católicos daqui destes novos ícones(as) russos(as). A alminha de Afonso de Albuquerque carpindo, lamenta o facto de, no seu tempo, não haverem piratas russas.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Kashi, Banaras, Varanasi - Parte2


Camadas de gente em pulsão vital, camadas que retiramos
progressivamente até chegar ao rosto que olha de frente, nos olhos.
Aqui olha-se nos olhos, despudoradamente, naturalmente
e sorri-se. Esta troca simples emociona. Camadas de espiritualidade encostadas a uma árvore banian em forma de tridente de ferro e pote de barro ou lingam de argila, flores e pó de sândalo.
Pedras adoçadas pela mão que as toca, pequenos oráculos, templetes onde não cabe uma pessoa ou a arquitectura religiosa no seu esplendor no templo Vishvanat.
Espiritualidade da “mão esquerda”, na atitude tântrica do aghori que desafia todas as normas, bebendo água nas caveiras que transporta, cobrindo o corpo de cinzas das cremações,
vivendo nos locais mais impuros para fortalecer o seu próprio poder.

sábado, 14 de março de 2009

Kashi, Banaras, Varanasi - Parte 1

Começou o tempo quente em Banaras. Luz e pó, som e fumo. Envolvem Varanasi várias camadas. Camadas de história da história do Mundo que frequentemente subvertem as interpretações dos peritos. Camadas de tempo que “patina” a arquitectura e a oculta, desvendando-a apenas, aos mais persistentes e pacientes. De repente, por trás de uma esquina, esconde-se Kuruksetra, um dos mais belos kunds (lago) de Varanasi. Imundo de lodo e lixo com a dignidade dos locais que sabem da sua importância. Espreita-se por uma porta, tentando não pôr os pés na lama fétida e um pátio interior colunado e rendilhado dá-se a ver na cor dos saris das mulheres sentadas sobre si próprias, à conversa. Estarão assim há mil anos? Azuis pálidos, ocres de sangue derramado na pedra de Chunar, brancos velhíssimos, emolduram o olhar. Um subtil gesto de mão convida a entrar e a ficar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Nigam

Nigam nasceu em Banares depois dos seus pais
terem mergulhado no poço de Tulsi, “trocado de pele”,
atirado a infertilidade Ganga abaixo na direcção do mar.
Nigam devia ter sido chamada mulher da água.
Quando fecha os olhos castanhos, Nigam revê o poço do rio,
a água dentro da água, o silêncio.
Por isso Nigam prefere não dormir.
Quando a cidade descansa, passeia pelas ruas
com dois ou três cães por companhia. Acorda os macacos
com assobios silenciosos, descobre tudo
o que há para descobrir nas ruas de Kaxi, sabe de cor
o que dizem os cartazes de cinema, quando vai chover,
trepa às árvores para acariciar os macacos tontos de sono,
informa os ratos do próximo carregamento de farinha,
induz sonhos maravilhosos aos riquexós-wallas
que descansam em sobressalto pelo dia que se avizinha
e que ficam a sorrir dormindo, depois dela passar.
Se lhe perguntam: - Nigam onde mora o Dr. Kumar, responde:
-É fácil...passando a árvore Banian em Kachauri Gali,
volta-se para Norte depois das três cabras, caminha-se
tanto tempo quanto a formiga acarta o grão de trigo
para casa...depois há três pedras muito lisas e um ninho
de vespas...é aí.
Recebe a manhã com os pés na água;
o sol entra dentro dela e
a claridade repousa-a da noite atarefada.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Orvalhos

Agora dei em ler Herberto Helder aqui nos trópicos. Debaixo de uma jaca no jardim, com um sopro de ar quente que adormece os mosquitos, estendo essa escrita pela tarde. “Havia um homem que corria pelo orvalho dentro”, podia ser aqui onde, num momento breve pela manhã, tudo é possível dentro do silêncio. Momento breve entre a inspiração e a expiração e, nesta eternidade, meditar sobre o “homem que levava uma flecha pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado loucamente por um caçador de que nada se sabia”. “A faca não corta o fogo” é o último título de mestre Helder e a pintura de Ilda David na capa atira-me para dentro de uma oficina de alquimista. Engordam as palavras do livro neste espaço de corvos, palmeiras, mangueiras e flores indizíveis. Nem precisam de picante. Obrigado FOGO.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Mahaxivaratri

Agora em Gokarna, no Karnataka, para participar no MahaXivaratri que culminou nesta Lua Nova de Fevereiro. Xivaratri é um tempo dedicado ao deus Xiva. Nestes lugares sagrados (tirthas), os cultos, a devoção e o movimento dos crentes intensificam-se neste período. Aqui em Gokarna estão montadas várias estruturas para acolher os peregrinos, nomeadamente uma tenda, instalada na praia que pode servir 5000 refeições simultâneas. No templo de Ganesh (o que remove ou coloca obstáculos, deus com cabeça de elefante, filho de Xiva), existe um lingam (símbolo fálico) que tem uma curiosa história mitológica. Ravana, um temível demónio, entregou o lingam a Ganesh enquanto descansava de uma longa jornada. Ganesh, para proteger o lingam deste demónio, enterrou-o quase totalmente. Ravana fez tanta força para o remover que lhe retorceu a ponta. Assim, em Gokarna, existe o único lingam com a extremidade retorcida, sendo objecto de grande devoção. Sete horas em fila de espera junto ao templo de Maheswara (Xiva) para fazer darshan (visualizar o ícone e nesse curto momento ser igual a Deus); oferecer cocos, bananas, colares de flores, pigmentos; tocar o sino, dizer um ou dois mantras, sorrir. Uma amiga perguntava a outros amigos indianos o que estava previsto em termos de casas de banho para acolher tanta gente. Com um sorriso foi-lhe respondido que as casas de banho já existem. De facto, pela madrugada, é possível observar ao longo da praia uma enorme fila indiana de rabos alinhados junto ao mar. Nas próximas semanas, Gokarna não vai ter bandeira azul! Na tarde seguinte à Lua nova, uma grande manifestação popular acontece: um enorme carro de madeira encimado por uma estrutura semelhante a um templo, é deslocado na rua principal de Gokarna enquanto muitos milhares de pessoas lançam bananas contra a cúpula. Apanhar a mesma banana que se lançou depois de ela tocar o templo, é felicidade garantida. Aqui comem-se banana bans, uma espécie de sonho de banana que recomendo vivamente, acompanhadas de uma suit lassie, semelhante a batido de iogurte. Estas coisas só estão acessíveis nos restaurantes populares por isso, é mesmo preciso perder esta nossa paranóia ocidental da higiene e provar as delícias ocultas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Raju

Caía a luz em Madras. Raju, seguido do irmão mais novo

quase bebé, chegou à porta do restaurante.

Nas mãos, a marmita vazia, no olhar, as ruas

da cidade madrasta.

Mediu os presentes e a situação

e teve uma ideia. Chamou o empregado lá fora e

propôs-lhe um negócio: Ele varreria as flores amarelas

de frangipani que cobriam o chão da esplanada,

o empregado encheria a marmita. O acordo fez-se

e Raju, olhos brilhantes pela maneira fácil

que encontrara para poder jantar, procurou

uma velha e esfarrapada vassoura atrás da árvore

e começou a limpar. Aos ziguezagues, volta atrás

vai à frente, ajudado pelo irmão com um ramo de árvore,

volta atrás vai à frente, lá chegou ao fim da tarefa.

Chamou de novo o empregado para mostrar o serviço

mas este, mão esticada, apontou os cantos ainda sujos.

Raju, sem largar a marmita, apanhou de novo a vassoura e,

mais rapidamente, varreu flores amarelas atrás de flores

amarelas para a rua. Satisfeito, arrumou a vassoura

e voltou a chamar o empregado. Veio outro empregado

que o mandou embora e ele explicou-lhe o contrato

que tinha feito com o colega. Este empregado olhou

o passeio com atenção e indicou mais umas quantas flores

amarelas que entretanto tinham caído.

Raju, marmita vazia na mão, repetiu velozmente a tarefa e,

olhando para a agora imaculada tijoleira vermelha,

deu por concluído o trabalho.

Arrumou a vassoura e, dando a mão ao irmão,

chamou o empregado.

Por cima dele um bando de corvos estridente

e espalhafatoso acabara de chegar à arvore das flores amarelas e,

por entre namoros e gritos, agita-se nos ramos

preparando-se para passar a noite.

A marmita de Raju enche-se de flores amarelas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Mais para Sul

Para me reconciliar com esta costa “algarvia”, estou em Palolem, no extremo sul do estado de Goa já quase em Karnataka. Bela baía com rochas e extenso areal. Tudo o que está construído nesta praia de Patnem, é-o em materiais perecíveis, bambu, chapra (palmeira entrançada), madeiras leves e corda. O que havia de tijolo foi mandado deitar abaixo pelo Carlos Pimenta cá do sítio. Um homem com tomates ou melhor dito, com pimentões picantes porque aqui a corrupção mata mesmo. Ao pôr-do-sol instalam-se algumas mesas e cadeiras no areal. Come-se magnífico peixe grelhado servido em travessa de legumes e os tomates têm pequenas velas dentro. Uma curtição. Como diriam por cá: Palolem bahut bariá hain!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Imagens por palavras


Por motivos de ordem técnica, o trânsito de palavras neste blog será interrompido durante alguns dias. Publicarei apenas imagens que não valem as tais mil palavras que dizem.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Kajal, pó negro de antimónio

Sentou-se no chão para escolher o arroz.
Seios opulentos, o gesto farto e elegante.
Transpira o sexo ignorado, mantido em segredo
por tantos rituais. Adivinha-se o transe na carne.
O kajal nos olhos acentua a fantasia do observador.
Neste território de poeira e frescura, sândalo e chá,
a pedra vermelha escalda até chegar ao rio.
Os cânticos do Guitá - sânscrito a jorros
nos altifalantes precários -, embalam e pontuam
a margem indefinida de água-cinza, panos-flores,
lama-lodo, preces-amendoim.
Lascas de madeira do cricket popular projectam à distância
gargalhadas de crianças. A lepra intercepta os dedos
em namasté incompleto. No reino do meio adejam,
soberbos, abutres vigilantes. Neblinas, sempre,
salpicadas de preto corvo. E os macacos.
Sentou-se no chão para escolher o arroz
e os olhos recobertos de kajal refrescante,
pousaram para além da margem, surdos à cor, meditando...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pequenas nódoas de gordura

Aguada, Candolim, Calangute, Baga e Anjuna uma linha de praias entre os rios Chapora e Mandovi. Pela mesma ordem de Aguada a Anjuna vai a gordura ocidental diminuindo e aumentando, um pouco, a elegância dos corpos brancos. Igualmente pela mesma ordem as tatuagens debotadas pelo acumular de gordura dos já precocemente velhos turistas, vão sendo substituidas por outras de melhor qualidade e de desenho ainda intacto. Somos mesmo feios nós, os brancos. Pequenas nódoas de gordura nesta paisagem de verde, mar, esquilos e corvos, pássaros azuis, rochas vermelhas e areia preta. O top less das entradotas australianas e alemãs causa-me incómodo visual e imensa curiosidade e excitação aos jovens indianos. Aqui a nudez não existe, mesmo na intimidade. Quando olhamos os corpos finos, secos, brilhantes e em suspensão desta gente ficamos com a clara sensação de que é preciso fazer alguma coisa para que haja algum equilíbrio neste Mundo. Passeamos, ostensivamente e com as mamas pendentes, o desperdício e a abundãncia.