quarta-feira, 11 de abril de 2018

Flores do deserto

 
O que eu queria era deitar-me contigo e, no silêncio do teu corpo magro, cheirar as flores do deserto.
Ouvir e dar a importância à luz, ao tempo, à lentura de dias apanhados nos arbustos espinhosos, pousar a água na boca, ir por estrelas desconhecidas, ouvir a língua branca do lagarto, alguma areia risca os abraços e percorrer trilhos invisíveis debaixo da escarpa das constelações.
Na noite, na manhã, pelos dias…

Cheirar as flores do deserto, um oásis perfumado de rios do corpo, entrei. Gotas brancas marcam o território, a doçura da areia convida à suspensão do tempo, ao afago.
Afilamentos de dedos conduzem os olhos e a língua.
Esvai-se o dia e não  sabemos se à noite há caminhos ou, as estrelas, vão brincar sozinhas no azul disponível.

Cada caminho, um tamanho de caminho e queremos apanhar a boleia das corças. Há trilhos possíveis no ar saturado de incenso.
Amadurece o trópico noutros lugares.
Ainda noutros lugares meias vestem a pele, a mão tropeça no despir. Acrescentamos mar ao pensamento e tanta água por dizer.
Faz-se silêncio de murmúrios e cheiro-te deitado no
miradouro do corpo.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Pião

 
Uma cerveja, um parque de oliveiras; ao longe um rio que, nem a encher nem a vazar, espera que a conversa se desenrole e que possa fluir para o mar ou que o mar entre dentro e, as ostras, saciadas, soltem pérolas no azul; tempo a fazer caretas, conversa solta, corpo liberto do vinco nas calças.
Um pião vem rodopiar o dia e precipita os metais.
É a noite da laca vermelha.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A japonesa

 
Pela primeira vez ofereceram-me lugar no autocarro, uma japonesa linda. Eu não queria lugar no autocarro mas sim no colo da japonesa, ali ficar sentindo os perfumes do chá verde. Isto fez-me lembrar uma anedota da minha juventude que, hoje, seria certamente considerada misógina e racista: um grupo de putos perguntava, se a vagina das japonesas seria longitudinal ou transversal como os olhos e, o menino Carlinhos, liminar, disse que era longitudinal porque, quando as japonesas descem pelo corrimão o som que se ouve é ssssss e não te, te, te, o que se ouviria, caso fosse transversal. Esta memória apaziguou o percurso e, a japonesa com GPS, lá ia sorrindo ao Tejo sem saber da localização dos meus pensamentos.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Trans-sabores



Vamos a um indiano? Esta frase ouve-se cada vez com mais frequência nas tardes de Lisboa. Talvez tenha sido Garcia de Orta o primeiro a ter este desejo quando, no contacto com a medicina Ayurvédica, descobriu os infindáveis sabores e poderes terapêuticos das plantas indianas. Da guerra colonial veio a nossa apetência pelo jindungo. Lembro-me que, durante muitos anos foi, a malagueta, o único elemento de construção de uma culinária de fusão. Tudo com jindungo o que recordaria noites tropicais ainda que o camarada estropiado pelas minas não apreciasse o sabor. Diria que o 25 de Abril acabou com o quarto D,  destemperar. A chegada numa primeira fase de muitas etnias africanas e, posteriormente, de sabores mais asiáticos e longínquos veio destronar o jindungo enriquecendo a paleta gustativa e olfactiva das nossas cozinhas. Na mesa as cores intensificaram-se. O que era apenas amarelo e castanho ganhou vários arco-íris. Vermelhos vivos, amarelos, verdes esmeralda deixaram de assustar uma comunidade que ainda veste cinzento e azul escuro. Os portugueses começam a arriscar experimentar novos sabores, atrevem-se a comprar formas, substâncias e mistérios que desconhecem. Entram em espaços cujo cheiro, porque nunca sentido, os repugnaria. O nariz conservador e bem comportado dos portugueses ficou rebelde, curioso, atrevido. Já se mete onde não é chamado. Na sua casa, o português, combina experimentalmente, seguindo conselhos de amigos africanos ou asiáticos, ingredientes nacionais e estrangeiros com resultados, na maioria das vezes originais e repetíveis. As associações estrangeiras com os seus encontros culturais e gastronómicos são em parte responsáveis por esta onda “gourmet”.  Os imigrados são os grandes embaixadores das cozinhas dos seus países fazendo-nos perceber que, as grandes pratadas de feijoada, são apenas uma pequena parte dos sabores do Mundo. Também temos vindo a perceber e talvez integrar que, a pobreza e as dificuldades desses emigrantes, não são sinónimo de cozinhas, sabores e culturas elas também pobres. Pelo contrário uma mesa variada com uma extensa paleta de cores e de sabores quer normalmente dizer que estamos na presença de culturas ricas e hospitaleiras. Ainda hei-de ver servido bacalhau com batatas ao açafrão ou sardinhas assadas com molho korma.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

República da Transtuk-tuklândia episódio 3 – o campo de férias de Alfama

Descem às centenas, todas as manhãs, dos becos do pladur. O som dos troleys dá cor à manhã. É o imenso campo de férias de Alfama que se movimenta na busca da torrada com meia de leite ou, da Sagres, que faz arrotar a noite que foi de altos gritos pelas vielas do fado. Abre cedo este campo de férias. Fecha tarde este campo de férias. As esplanadas não respeitam a hora de fecho. Não há a mínima fiscalização. Ao fim da tarde, a polícia municipal, mesmo interpelada directamente, desculpa-se que está ali pelo trânsito e não quer interromper os concertos de USB e voz desafinada, altamente amplificados que ecoam nas janelas. Preocupa-me a próxima campanha eleitoral para a Câmara e para as juntas, nomeadamente para a Junta de Santa Maria Maior. Vão gastar imenso dinheiro fazendo campanha no Airbnb e no Homelidays. Não vai ser barato e tudo terá que ser traduzido em inglês, ainda que das docas ou, do terminal de cruzeiros.