terça-feira, 23 de outubro de 2018

A besta

A coisa vai ganhar. Os apoiantes da coisa vão, nessa noite, comemorar matando gente. A coisa vai entrar a tiro em vários lugares numa suposta caça à banditagem em prol da segurança nacional e massacrar sem critério. A besta/coisa vai separar branco, preto, mestiço, homo, trans, índio e vai instituir um novo apartheid. O animal não vai ficar saciado enquanto não arrasar as poucas instituições democráticas que restam. Que se cuidem os artistas, os cantores, as tribos urbanas ou amazónicas. Uma vaga de sangue, de discriminação, de violência bruta, uma vaga degoladora vai atravessar e infectar o país. Árvores centenárias de Roraima vão cair, incendiadas, em Santa Catarina e a peste fascista contaminará todas as águas, todas as analfabetas consciências, todos os oportunistas. Uma longa noite cobrirá o trópico.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Flores do deserto

 
O que eu queria era deitar-me contigo e, no silêncio do teu corpo magro, cheirar as flores do deserto.
Ouvir e dar a importância à luz, ao tempo, à lentura de dias apanhados nos arbustos espinhosos, pousar a água na boca, ir por estrelas desconhecidas, ouvir a língua branca do lagarto, alguma areia risca os abraços e percorrer trilhos invisíveis debaixo da escarpa das constelações.
Na noite, na manhã, pelos dias…

Cheirar as flores do deserto, um oásis perfumado de rios do corpo, entrei. Gotas brancas marcam o território, a doçura da areia convida à suspensão do tempo, ao afago.
Afilamentos de dedos conduzem os olhos e a língua.
Esvai-se o dia e não  sabemos se à noite há caminhos ou, as estrelas, vão brincar sozinhas no azul disponível.

Cada caminho, um tamanho de caminho e queremos apanhar a boleia das corças. Há trilhos possíveis no ar saturado de incenso.
Amadurece o trópico noutros lugares.
Ainda noutros lugares meias vestem a pele, a mão tropeça no despir. Acrescentamos mar ao pensamento e tanta água por dizer.
Faz-se silêncio de murmúrios e cheiro-te deitado no
miradouro do corpo.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Pião

 
Uma cerveja, um parque de oliveiras; ao longe um rio que, nem a encher nem a vazar, espera que a conversa se desenrole e que possa fluir para o mar ou que o mar entre dentro e, as ostras, saciadas, soltem pérolas no azul; tempo a fazer caretas, conversa solta, corpo liberto do vinco nas calças.
Um pião vem rodopiar o dia e precipita os metais.
É a noite da laca vermelha.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A japonesa

 
Pela primeira vez ofereceram-me lugar no autocarro, uma japonesa linda. Eu não queria lugar no autocarro mas sim no colo da japonesa, ali ficar sentindo os perfumes do chá verde. Isto fez-me lembrar uma anedota da minha juventude que, hoje, seria certamente considerada misógina e racista: um grupo de putos perguntava, se a vagina das japonesas seria longitudinal ou transversal como os olhos e, o menino Carlinhos, liminar, disse que era longitudinal porque, quando as japonesas descem pelo corrimão o som que se ouve é ssssss e não te, te, te, o que se ouviria, caso fosse transversal. Esta memória apaziguou o percurso e, a japonesa com GPS, lá ia sorrindo ao Tejo sem saber da localização dos meus pensamentos.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Trans-sabores



Vamos a um indiano? Esta frase ouve-se cada vez com mais frequência nas tardes de Lisboa. Talvez tenha sido Garcia de Orta o primeiro a ter este desejo quando, no contacto com a medicina Ayurvédica, descobriu os infindáveis sabores e poderes terapêuticos das plantas indianas. Da guerra colonial veio a nossa apetência pelo jindungo. Lembro-me que, durante muitos anos foi, a malagueta, o único elemento de construção de uma culinária de fusão. Tudo com jindungo o que recordaria noites tropicais ainda que o camarada estropiado pelas minas não apreciasse o sabor. Diria que o 25 de Abril acabou com o quarto D,  destemperar. A chegada numa primeira fase de muitas etnias africanas e, posteriormente, de sabores mais asiáticos e longínquos veio destronar o jindungo enriquecendo a paleta gustativa e olfactiva das nossas cozinhas. Na mesa as cores intensificaram-se. O que era apenas amarelo e castanho ganhou vários arco-íris. Vermelhos vivos, amarelos, verdes esmeralda deixaram de assustar uma comunidade que ainda veste cinzento e azul escuro. Os portugueses começam a arriscar experimentar novos sabores, atrevem-se a comprar formas, substâncias e mistérios que desconhecem. Entram em espaços cujo cheiro, porque nunca sentido, os repugnaria. O nariz conservador e bem comportado dos portugueses ficou rebelde, curioso, atrevido. Já se mete onde não é chamado. Na sua casa, o português, combina experimentalmente, seguindo conselhos de amigos africanos ou asiáticos, ingredientes nacionais e estrangeiros com resultados, na maioria das vezes originais e repetíveis. As associações estrangeiras com os seus encontros culturais e gastronómicos são em parte responsáveis por esta onda “gourmet”.  Os imigrados são os grandes embaixadores das cozinhas dos seus países fazendo-nos perceber que, as grandes pratadas de feijoada, são apenas uma pequena parte dos sabores do Mundo. Também temos vindo a perceber e talvez integrar que, a pobreza e as dificuldades desses emigrantes, não são sinónimo de cozinhas, sabores e culturas elas também pobres. Pelo contrário uma mesa variada com uma extensa paleta de cores e de sabores quer normalmente dizer que estamos na presença de culturas ricas e hospitaleiras. Ainda hei-de ver servido bacalhau com batatas ao açafrão ou sardinhas assadas com molho korma.