sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Livros

Nesta época comercial e para um ateu como eu, sabe bem ler as palavras do cardeal patriarca de Lisboa saudando os que acreditam “num Deus único”, louvando os seguidores das religiões do livro, os descendentes de Abraão.
É clarificador e tranquilizador esta visão parcial e discriminatória da Humanidade, esta visão objectiva, sem rodeios nem eufemismos da posição da Igreja. Mal aventurados os que acreditam em vários deuses e nas múltiplas e complexas manifestações do divino; mal aventurados aqueles que acreditam na pedra, na árvore, no animal, na natureza como repositório e manifestação do Universo porque deles não será o reino dos céus cujo espaço já está ocupado com imensas prateleiras cheias de Bíblias, Alcorãos e Torás.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um ano

“A vida é como uma gota de orvalho na ponta de uma lamina de erva quando nasce o Sol” Visuddhi Magga
Este blog faz hoje um ano. Esta impermanência, este fogacho de letras e imagens, estas reflexões de um ocidental que, neste momento, não está à ilharga do Mar Arábico são um pedaço de vida bem mais pequeno que a tal gota de orvalho. Foi há poucos segundos que escrevi o primeiro texto. Continuo em peregrinação.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Yes we can't

Terminou a reunião de Copenhaga e chega a ser risível observar as caras consternadas dos líderes dos maiores países do Mundo. Todos eles afirmam que o “Acordo” ficou muito aquém do esperado. Mas afinal quem esteve naquela reunião? Afinal quem decidiu nada decidir? É óbvio que a finitude da vida humana e a ainda maior pequenez temporal dos cargos políticos, tolda a consciência planetária e não permite nenhum tipo de decisão global. Este facto coloca questões muito importantes ao cidadão do Mundo, à Comunidade Terra. Eu, um dos seis mil milhões, não quero ser dirigido por tal gente.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Luís Vaz

' Todo o Mundo é composto de mudança... Ninguém lê esta estrofe com quinhentos anos e ninguém a aplica. Já outros o disseram muitos séculos antes, outros o repetiram séculos depois mas não serve de nada. No campo da Educação os métodos, os processos de aprendizagem, a comunicação numa só direcção; o saber (matérias restritas) como forma de poder; o peso da Academia como oráculo indesmentível do conhecimento; a regra, a norma elevadas à categoria de critério universal e do qual depende a evolução das sociedades; a diferença e a rebeldia classificadas com uma etiqueta psico qualquer coisa e, se possível, drogadas com Ritalina ou semelhante para que tudo fique adormecido e calmo para o professor poder, enfim, explanar a sua sabedoria e, eventualmente, ser avaliado com um Bom+; a incapacidade dos professores em fazer brotar a criatividade; a incapacidade do sistema Escola/ensino em produzir alternativas equivalentes nos vários domínios dos saberes artísticos, conferindo-lhes igualdade de estatuto e de reconhecimento académico, tudo isto produz este Pais engravatado e castrador, frustrado e cinzento, infeliz e miserável mas olimpicamente corrupto, que esquece, educadamente que a mudança...toma sempre novas qualidades'

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Chocolate branco

Terão que concordar que 57% dos suíços não são racistas, apenas têm um muito apurado gosto arquitectónico. Todos sabemos que a imagem de um minarete recortado contra os Alpes é de um terrível mau gosto, apenas comparável ao de uma petite maison Suisse, recortada contra a serra da Lousã. A sombra de um minarete no Sol de Inverno, contamina a brancura imaculada de uma neve verdadeiramente suíça. Além disso, os suíços, com uma política de saúde muito desenvolvida querem impedir que os muezzins, ao subirem aos minaretes para anunciar a oração da tarde, apanhem um resfriado tipo gripe Al. Só temos que louvar esta preocupação tipicamente suíça com as comunidades islâmicas que habitam o seu território. Os detractores deste povo do relógio dizem que os suíços estão a retaliar por causa da quebra do segredo bancário no seu território enquanto que o sistema Hawala continua a prosperar nos países islâmicos. Em todo o caso, a partir de agora, vou passar a comer apenas chocolate branco, suíço, claro.

À tripa forra

Na Ordem dos Advogados o bastonário diz que não se pode gastar à tripa forra; o Sindicato dos Magistrados, (estrutura totalmente aberrante e inexplicável), quer que as escutas privadas sejam públicas; um alto militante do PSD que por acaso também é professor de direito, acha que o povo português não vai dormir descansado e vai ficar ainda mais deprimido, se não ouvir o que Sócrates disse a Vara; o chefe do Supremo mandou destruir as escutas por não conterem indícios mas ninguém liga nenhuma; o Procurador Geral desta República diz que será então num próximo Sábado, de vários Sábados que vai tomar uma posição; Jerónimo diz que é preciso guardar os CD para memória futura; os vários jornais desdobram-se em contactos anónimos para obterem alguns bytes da informação contida nas gravações; imprime-se papel à conta da informação que um amigo do amigo do amigo do amigo do porteiro diz que disse; os julgamentos dos processos de pedofilia já duram há 5 (cinco) anos; o processo Face Oculta irá durar (é um palpite) dez anos até a sucata enferrujar completamente; o marido macho mata a mulher e um GNR “por amor”; D. Sebastião não chegou na mais recente manhã de nevoeiro; Portugal não ganhou o Euromilhões; já nem falo da crise; decorre a Cimeira Ibero-americana sobre inovação e conhecimento ... MAIS INOVAÇÃO???

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Manoj Pandey

O brâmane Manoj Pandey nasceu em Bombaim e emigrou ainda jovem para Varanasi. Sendo esta cidade frequentada por uma grande população de estudantes estrangeiros que aqui passam alguns anos na produção de mestrados e doutoramentos, Manoj viu, no imobiliário, a sua grande oportunidade. Decidiu remodelar o prédio do qual era proprietário e adaptá-lo ao gosto ocidental mantendo, no entanto, a estrutura arquitectónica indiana e a sabedoria dos artesãos do sítio. As famosas e muito higiénicas “retretes turcas” foram substituídas por sanitas ao gosto ocidental com grande festa dos operários da obra; janelas com rede mosquiteira, outra inovação cuja notícia correu o bairro; peças de mármore de gosto duvidoso, posteriormente corrigido, para os tampos dos balcões da cozinha; chão de mármore, lindíssimo polido à mão; cama fabricada no lugar por uma equipa de carpinteiros com berbequim manual e ferramentas com o melhor design industrial — torneados doces para noites quentes; pintura a cal branca, azulada, fresca, transparente; luzes gigantes de néon, a morada das duas osgas permanentes — a Eulália e a Nazaré; estantes de alvenaria feitas nas paredes à moda indiana e espaço, espaço, espaço. Este apartamento completo e alugado, Manoj decidiu continuar as remodelações que se arrastaram durante anos porque ele nunca conseguia ficar em paz com as soluções encontradas. Cada vez que vagava um apartamento, Manoj iniciava obras de remodelação para o tornar mais moderno, mais ousado, sempre na vanguarda. Ao mesmo tempo, na entrada do prédio, Manoj inaugurou a primeira loja de telecomunicações do bairro — telefonemas e faxes nacionais e internacionais com facturação automática, via satélite. Tempos depois, noutra dependência, abriu uma loja de sedas que geria com o irmão e a família. Estes negócios eram dirigidos da sua cadeira preferida colocada no pátio de onde emitia ordens e instruções sobre todas as matérias relativas à construção civil, à electrónica ou à fluidez da seda de Banaras mas, não se pense, que Manoj é deficiente. Da sua cadeira encomendava pan, chá, whisky, iogurte, kachauris e outros fritos picantes, instruía os filhos sobre a escola, indicava à sua mulher Usha o que devia fazer para o jantar, dava palestras sobre politica nacional, fazia reuniões com jovens nacionalistas hindus, enxotava os macacos, chamava os riquechós, jogava Karam, fumava, lia as linhas da mão. Manoj tinha uma voz gutural, enrolada e potente. Sem esforço, comandava e ainda comanda o seu pequeno mundo em Bhelupura, Varanasi, Índia.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Rama nama satya hé


“Primeiro o vazio;
Segundo a semente;
Terceiro a emanação da imagem;
Quarto a articulação da sílaba;
Quinto a plenitude do vazio.”
Hevajra Tantra

Rama nama satya hé.
Este mantra – o nome de Deus é verdade -
ouve-se frequentemente nas ruas de Banaras e
acompanha os defuntos até ao rio Ganges
onde são imersos antes da cremação.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um desafio para cinco revelações


Este desafio enviado por Ana Paula Fitas do A Nossa Candeia consiste em os bloggers que o queiram aceitar, procedam da seguinte forma:

1 - Seguir as Regras;

2 - Colocar o selo no início da mensagem que indica quem está, quem esteve, ou estará na brincadeira;

3 - Completar as 5 frases seguintes:

Eu já tive... gripe asiática;

Eu nunca... me vacinei contra as várias mutações do Poder;

Eu sei... que gostava de entender o pré Big Bang e o pós 25 de Abril;

Eu quero... silêncio mesmo dentro do ruído;

Eu sonho... que é fixe haver aviões.

sábado, 21 de novembro de 2009

Paciência

Contribuição ainda que tardia para o tema da tolerância colocado oportunamente pelo A Nossa Candeia. É uma tradução livre de um excerto do livro Meditation in Action do Mestre Tibetano Chögyam Trungpa.
— ...Quem desenvolve competências para ser paciente, não espera nada de ninguém, não porque não confie mas porque sabe como estar no centro. Assim, para obter o silêncio, não enxota os pássaros que fazem barulho. Para ficar quieto, não para o movimento do ar ou do rio mas aceita-os e, assim, fica consciente do silêncio. Aceita-os como parte do processo para chegar ao silêncio. Portanto, o aspecto mental do ruído dos pássaros afecta a sua psicologia. Por outras palavras o ruído dos pássaros é um dos factores, a nossa concepção psicológica do ruído é outro. Quando se consegue lidar com esse lado, o ruído dos pássaros torna-se silêncio audível. Deste modo não se deve esperar nada do exterior, não se deve tentar mudar a outra pessoa ou as suas opiniões. Não se deve tentar convencer ninguém numa altura não apropriada, quando as opiniões do outro estão fortemente consolidadas, quando as nossas palavras não conseguem penetrar. Como exemplo há o das duas pessoas que caminham ao longo de uma estrada pedregosa. Uma delas diz que seria muito bom se a estrada fosse toda revestida de couro e assim seria fácil a caminhada. A outra, pelo contrário, acha que bastaria proteger os pés com couro para que o efeito fosse o mesmo. Isto é a paciência; não se trata de não ter confiança mas sim de não esperar nada exterior a nós e não tentar mudar a situação fora de nós. Esta é a única maneira de criar paz no Mundo. Se nós próprios estamos dispostos a fazer isso no nosso íntimo então alguém mais o fará e, certamente, mais cem o farão... —

O Povo em três capítulos — Capítulo III

Coube ao agente SCUD a tarefa mais espinhosa: o povo da estrada.
Para analisar o povo da estrada é preciso andar na estrada e, para isso, comprar um carro. E aqui começa a saga: que carro comprar? São todos oferecidos. Alguns só se começam a pagar 5 anos depois. Os juros são transformados em viagens aos trópicos, relógios ou langerie. O agente SCUD estava confuso e a sua primeira conclusão foi que, neste país, só não tem carro quem não quer porque tudo são facilidades e os vendedores até têm alguma relutância em aceitar o nosso dinheiro. Mas, finalmente, e com o acordo da sede, lá se decidiu adquirir um Tuga RVSX500TDPLUS+SPORT carro relativamente económico, pagável em 500 meses, com o IVA convertível em acções do Tesouro. A única desvantagem eram os extras: pneus, bateria e carburador tinham que ser pagos à parte e a pronto. Mas enfim, a sede lá desbloqueou algumas verbas da venda de património militar e tudo se compôs.
Numa bela manhã o conjunto SCUD - Tuga RVSX500TDPLUS+SPORT, fez-se à estrada.
O agente SCUD ligou o rádio e começou a gravar, para análise futura, o programa sobre o trânsito. Espantado percebeu que aquela linguagem cifrada era seguramente proveniente dos serviços de contra espionagem do país para lhe dificultar a tarefa. Gravou o programa para ouvir numa reunião, que imediatamente marcou com os seus colegas MOT e ACUT, deixando para tal uma mensagem numa estação de serviço junto à bomba do gasóleo EcoPlusMaisMais, conforme previamente acordado. Ainda não seria hoje que a estrada o embalaria, resmungou contristado o agente SCUD.
Extracto da gravação efectuada nesse dia:”...da a4 para a a5, da vci para a crel, da crel para o ic8 e do ic8 para o ip5, do ip5 para a cril, da cril para o túnel do grilo onde há nevoeiro. A Norte da ic19 para a 25 de Abril, de Bartolomeu Dias para a Vasco da Gama, da Vasco da Gama para a a1...
Os 3 agentes ouviram repetidamente esta gravação, de trás para a frente, da frente para trás, em baixa velocidade, com eco, sem eco e nada. Pensaram para si que este país tem uma contra espionagem que alto lá com ela! Prolongado silêncio quebrado pelo agente SCUD que disse que o melhor era mandar a gravação codificada pelos canais apropriados e esperar uma decifração. Até lá, este agente, limitar-se-ia a circular nas auto estradas não se arriscando a frequentar outras vias por demasiado perigosas e, seguramente, vigiadas. Despediram-se com o compromisso de não se voltarem a reunir por ser demasiado perigoso e podendo pôr em risco a missão.
Algumas notas de asfalto do agente SCUD:
O povo da estrada não estaciona, pousa delicadamente os automóveis em cima do passeio.
O povo da estrada cruza as passadeiras depressa pedindo desculpa aos peões assustados. O povo da estrada é delicado.
O povo da estrada não apita, usa o claxon às 4 da manhã para o amigo vir à janela ver o último modelo de telemóvel. O povo da estrada não gosta de passar à frente de ninguém por isso fica numa fila interminável quando pode fazer duas. É também por isso que o povo da estrada não gosta da Via Verde mas ocupa essa via porque gosta de partilhar o tempo de espera.
O povo da estrada gosta de se colar à traseira do automóvel da frente. É um modo envergonhado de expressar os seus apetites sexuais.
O povo da estrada é lascivo mas tímido.
O povo da auto-estrada, obedecendo escrupulosamente ao conceito de prioridade à direita, anda na faixa da esquerda mais lentamente.
O povo da estrada conhece e cumpre o código.
O povo da estrada não usa os piscas para poupar energia que tanto dinheiro custa ao país. O povo da estrada adora parar intempestivamente de qualquer maneira e em qualquer lugar para comprar melões e cebolas mais caros do que os que se vendem na sua rua.
É uma maneira discreta e sábia de ajudar a PAC e de testar a atenção de quem vem atrás.
O povo da estrada não gosta de morrer em casa, isso é para maricas, mas sim com as trombas no airbag, o pé no ABS e a mão no telemóvel.
O povo da estrada é muito comunicativo.
O agente SCUD releu pela quinta vez a missiva codificada proveniente dos seu serviços:
“Vasco da Gama e 25 de Abril sabemos o significado embora aqui não se aplique. As restantes palavras armadilhadas permanecem desconhecidas e perigosas. Abortar missão”
E foi assim que, por motivos de ordem técnica, os 3 agentes foram forçados a regressar ao seu país.

Que me desculpem os meus amigos que apanham a azeitona que vão à cortiça e que plantam as abóboras mais lindas do Mundo. Cerca de 70% da nossa população vive nas cidades. Havia um quarto agente, confesso, o agente Orvalho mas, apaixonou-se pelo campo e desapareceu nas neblinas, por isso não temos o seu relatório.
FIM

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Povo em três capítulos — Capítulo II

O agente Por Motivos de Ordem Técnica (a partir de agora MOT), começou por procurar casa junto de uma estação de Metro. Não foi fácil mas lá conseguiu arranjar um pequeno duas assoalhadas próximo da estação de Amadora Este Colégio Militar Luz. Pré comprou bilhetes, recargas de passe, uma mochila e preparou-se para passar claustrofóbicos dias. Habitualmente era agente de superfície mas esta missão subterrânea ia permitir-lhe uma promoção e, por isso, valia a pena o sacrifício. Começou por estudar as horas de ponta e os fluxos humanos na estação do Marquês de Pombal. Fotografou, entrevistou, analisou, anotou, fez desenhos esquemáticos, diagramas que enviou para a sede. Esperou o correio diplomático com algumas indicações rigorosas para poder operar no terreno com alguma base teórica. No fim do segundo mês, recebeu dois relatórios codificados provenientes de duas das mais famosas universidades do seu país. A conclusão era unânime: apenas a teoria do caos explicava, ainda que incompletamente, o movimento de passageiros e o desenho da estação do Marquês. Era, segundo os peritos, uma obra muito avançada e seriam precisos alguns anos de investigação no domínio da física quântica para encontrar um modelo plausível e compreensível para aquele projecto. Até lá o agente deveria fazer investigação menos fundamental e percorrer as várias estações de modo a obter dados para conclusões mais mensuráveis. Assim fez MOT e foram estas as suas conclusões:
O povo do metro caracteriza-se pela sua postura parada e meditativa do lado de fora e do lado de dentro das carruagens onde constitui uma barreira intransponível de energia primitiva. O povo do metro não se mexe, desloca-se parado, a carruagem que se mexa. Assim sendo não faz mais que seguir as mensagens publicitárias – nós levamo-lo a todo o lado. O agente MOT, por várias vezes, não conseguiu descer na estação onde queria porque um muro da tal energia primitiva, impedia de o fazer e, não querendo ser mal educado empurrando blocos de pensamento profundo, preferiu descer na seguinte o que, diga-se de passagem, prejudicou o seu estudo. O povo do metro lê o Metro o que dá uma grande unidade de estilo neste mundo subterrâneo e torna profundas as referências superficiais. O povo do metro, quando tem espaço, o que vai sendo cada vez mais difícil, gosta de estender o sapato para o banco da frente, introduzindo deste modo um cromatismo mais viscoso e orgânico nos tecidos industriais e pouco amigáveis dos bancos. São pequenas performances sempre agradáveis, sempre de vanguarda. O povo do metro é artista. O agente MOT fotografou vários conjuntos pictóricos murais grafitados de profundo significado artísticósemânticósimbólico. Alguns destes exemplos ilustram a capa do seu relatório de investigação e já circulam na Net, ainda que contra a sua vontade. Destaco dois: “esta é a minha assinatura fo...-se” e, “esta é a minha outra assinatura fo...-se”. Os outros podem ser pesquisados em www.fabioamavanessa.org. Nas centenas de viagens que o agente MOT realizou, observou a grande preocupação que o outro povo do metro tem com as escadas e tapetes rolantes. Para não se avariarem estão sempre a ser reparados o que prova o respeito deste povo pela conservação das suas coisas. Para o estudo do agente MOT, este facto, prejudicou-o porque assim não foi possível tirar grandes conclusões sobre o funcionamento destes equipamentos. Observou ainda aquilo a que chamou sinergia construtiva e que consiste no aproveitamento de muitos corredores de acesso às estações para testes de aerodinâmica. As companhias aéreas e os construtores de automóveis do país instalam aí os seus produtos para medir as turbulências causadas pelos túneis de vento e fazerem testes científicos de resistência de materiais, tal é a corrente de ar nos locais. Uma outra coisa que animou o agente MOT neste estudo foi o facto de haver música em todas as estações. E à medida que as carruagens se aproximam, música cada vez mais alta...eles pensam em tudo concluiu o agente. No seu país a defesa do silêncio é uma política de estado, transformando as casas, as ruas, os transportes em algo sem interesse parecido com bibliotecas. O capítulo final do relatório do agente MOT, recebeu os mais rasgados elogios da sua hierarquia pela sagacidade, sensatez, profundidade e pontes para o futuro que a sua análise revelou. Refere-se ele ao desenho da rede metro e ao facto de esta rede não comunicar com o aeroporto na cidade capital do país. Segundo as conclusões do agente MOT, ligar o metro com o terminal de aviões revela-se nefasto e desaconselhável. Quando assim acontece, caso das outras capitais europeias, o risco de atentados aumenta exponencialmente; os passageiros que vêm do ar, sujeitos a uma determinada pressão atmosférica quando encaixados em carruagens subterrâneas podem sofrer embolias, sendo que o contrário é igualmente verificável; a corporação taxiaeroporto, SASR (sociedade anónima sem responsabilidade), iria à falência, aumentando o desemprego e a crise; ir do aeroporto à baixa de Lisboa não passando por Cascais revelaria falta de visão turística e, como tal, nacional. Assim concluiu e bem, o agente MOT.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Digam-me como se faz

O desemprego está nos 10%. Oiço todos os dias grandes tiradas político-ideológicas sobre esta questão. Digam-me como se faz. Insto os partidos PSD, PC, Bloco e CDS, porque são estes os grandes paladinos de soluções e porque é o PS que está no Governo. Se fosse outra a composição do leque político a minha pergunta seria rigorosamente a mesma: digam-me como se faz. Mas digam-me objectivamente, tipo 3 medidas que diminuam o desemprego para 7% em três meses. Digam-me como se eu tivesse onze anos. Vão tomar de assalto os empresários e obriga-los a fazer empresas na meia hora e contratar muitos trabalhadores?
Vão fretar navios armados e descarregar produtos de fabrico nacional na China, na Índia, na África com protecção da ONU, para aumentar as exportações rapidamente?
Vão sequestrar as multinacionais e obriga-las a produzir não só automóveis mas também pasta de dentes, detergentes, gestores, tudo isto empregando 30% dos desempregados de cada Centro de Emprego?
Vão fundar centenas de micro-nano-pequenas empresas para produzirem, por exemplo, coreografias para as festas autárquicas? Sei lá!
Digam-me como se faz que eu sou um cidadão estúpido, ainda mais estúpido por ser de esquerda. Tenho verdadeiras lacunas na teoria económica e não entendo esta cena da globalização. Mas digam-me como se faz, façam-me feliz e dêem emprego a 200.000 portugueses antes da Primavera. Vá lá senhores sejam os verdadeiros messias universais!
Ensinem todos esses políticos da treta que vemos na televisão tipo Obama, Merkl, Sarkozy (que horror!!!), sim ensinem-nos como o Portuga tem sempre soluções. Mundo, be cool... o Portuga resolve, Portugal will get you a job.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Povo em três capítulos — Capítulo I

A República Democrática Democrática da Transkasakávia (de notar que isto se passa após a queda da Grande Muralha), decidiu enviar espiões para várias partes do Mundo com o objectivo de diagnosticar culturas, sociedades, economias, modos de estar e pensar. Pretendia-se uma fotografia clara dos contextos geopolíticos que pudesse informar os decisores com objectividade e segurança. Assim foi feito no maior dos segredos como é usual nestas actividades.
A estes agentes apenas interessava a Europa sem estrelas, isto é, a Europa antropológica, residual e profunda que mantinha intactas as características socioculturais apesar da globalização. Por isso para a Europa do Sul, designada Unitat Lusos, foram enviados 3 agentes todos eles conhecedores profundos das línguas e literaturas regionais. Faltava-lhes, no entanto, um conhecimento mais próximo do real que esperavam não ser limitador da operação a que se propunham.
Viajaram separadamente e combinaram encontrar-se no Chiado Lissabon onde lhes seriam distribuídos os envelopes com as respectivas missões. Foi isto feito à mesa com Fernando Pessoa e galão, numa tarde de Sol frio de Novembro com cheiro a petróleo de castanhas assadas no ar o que muito os espantou e tomaram as primeiras notas de campo. Os envelopes apontavam os alvos: povo da bola, povo do metro e o povo da estrada.
Ao agente Acutilante (nome fictício) foi atribuída a análise do povo da bola.
Ao agente Por Motivos de Ordem Técnica (outro nome fictício), a compreensão e estudo do povo do metro.
Ao agente SCUD (ainda outro nome fictício), a descodificação alargada do povo da estrada.
O agente Acutilante (a partir de agora ACUT), perante esta importante missão, procurou preparar-se o melhor possível como era aliás seu costume. Assim sendo, comprou durante algum tempo os 3 jornais desportivos diários para se inteirar do dialecto futebolês. Isto causou-lhe algum desequilíbrio orçamental a par de um domínio notável de uma nova e esotérica terminologia. Os seus relatórios para a casa-mãe simultaneamente encantavam e deixavam perplexo o seu supervisor por uma tão cerrada, agreste, pressionante e tacticamente perfeita organização. ACUT no terreno tinha sempre dúvidas sobre que camisola e cachecol comprar, a que Banco fazer publicidade, qual a melhor atitude de marketing naquele contexto. Fora isso, a integração era perfeita e nenhuma claque jamais viu nele um espião a soldo de uma potência estrangeira. O seu relatório final é de uma clareza meridiana e de uma racionalidade irrepreensível. Passou a integrar, como objecto de estudo, o Manual do Espião Democrático Democrático. Vejamos:
O povo da bola não compra jornais mas lê o Oje, o Metro e, Globalmente, o do parceiro.
O povo da bola abstêm-se nas eleições e nos referendos mas cospe para o chão.
O povo da bola compra bandeiras pátrias com pagodes chineses e veste verde rubro em nádegas gordas.
O povo da bola tem palavrão fácil e racista contra os adversários.
O povo da bola é fanático e histérico na impertinente buzinadela, prolongando o pénis sem condom na mais alta taxa de progressão da Sida na Europa.
O povo da bola anda distraído e infantil com a bola.
O povo da bola enche os estádios mas não os teatros.
O povo da bola só tem a bola para se agarrar como um guarda-redes de uma pátria em decadência.
O povo da bola adora as fintas das vedetas como se fossem suas e protagoniza-se nas câmaras de TV em puro estado de choque mas com lenço na cabeça e gesso no calcanhar.
No dia anterior o povo da bola não trabalha, analisa e comenta.
No dia seguinte o povo da bola não trabalha, comenta e analisa.
O povo da bola organiza-se em gangues e conquista campos de batalha nas cidades.
Brigadas especiais da Câmara Municipal, recolhem o lixo da noite, outras brigadas especiais reparam os estragos.
O povo da bola levanta-se mais tarde porque ficou tonto de tantas voltas ao Marquês de Pombal.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ciclone dos Açores

Acabo de ouvir na rádio uma curiosa notícia: Governo Regional dos Açores retido três dias no Corvo devido ao mau tempo. Com este argumento o que não fariam em Hollywood ou Bollywood. Imagino as conversas à beira do extinto vulcão com os corvinos, a troca de opiniões, as decisões difíceis, as promessas. Tempos de crise estes em que até os Governos se deslocalizam para exercer a tão falada política de proximidade. Nem o anti-ciclone resistiu e foi substituído por, elas também deslocalizadas das Caraíbas, nuvens verticais que assolaram a piedosa intenção de reunir naquela ilha longínqua. Nos mares dos Açores há a actividade de observação de baleias. Suspeito que já se estejam a formar empresas na hora para observar o Governo Regional a reunir nas ilhas mais afastadas.

No coração da cor


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Varanasi e Guwahati

Águas do rio e da montanha

O pensamento civilizado

De Claude Lévi-Strauss guardo um conjunto de leituras que me ajudou a entender melhor o outro homem que é uma parte de nós que não conseguimos (queremos?) perceber. Guardo, sobretudo, o entendimento do devir do Mundo e das coisas, da plasticidade do homem. Quando perguntado numa entrevista qual, estando rodeado de tantos objectos, seria para ele o mais importante ou do qual gostaria mais, Lévi-Strauss pergunta: mas a que hora do dia, com que luz, com que disposição estaria, em que sítio? Veja aqui alguns desses objectos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Provérbios populares

Eu sou daqueles que acho que quem vê caras, vê corações. Olhando para o líder da FENPROF, olhando para o bigodinho do líder da FENPROF, olhando para os olhos arremelgados (como diz a minha boa amiga D. Gorgete) do líder da FENPROF, olhando para as expressões e trejeitos do líder da FENPROF, acho que consigo ver o seu coração pleno de centralismo democrático nas aurículas, de uma grande presunção no ventríloquo esquerdo e de um imenso e disfarçado autoritarismo no ventríloquo direito. A veia cava transpira untuosidade e aparente bonomia, simpatia plástica que escorrega para o resto do sistema circulatório e transparece nos olhos que, se não fossem arremelgados, seriam bem mais convincentes. Assim, topa-se à distância onde quer chegar o líder da FENPROF. Os professores, com honrosas excepções, dá-lhes jeito seguir o provérbio popular e querem ser considerados uma corporação de elite, nível superior da sociedade portuguesa, a casta bramânica nacional que só é avaliada pelos deuses. O conhecimento que debitam não está escrito, é revelado. Eles, humildes mediadores entre a divindade e as pobres cabeças dos nossos filhos. Uma avaliação profissional e terrena, mataria esta corporação de sacerdotes e poria, não os corações ao alto, mas à vista.

Professor Karamba

Digam-me se não estão todos um bocado fartos do comentador oficial do PSD na RTP, o Professor Marcelo? Eu prefiro o Professor Karamba. O professor Karamba resolve, como o português Liedson. Resolve mau olhado, desavença, questões de dinheiro, de amor, encrencas partidárias, coelhices e pachequices. O professor Marcelo não passa de um fraco assistente do professor Karamba. O Professor Marcelo nem resolve problema de facção coisa da qual o Professor Karamba já nem se ocupa. RTP, convida professor Karamba, vai!

domingo, 1 de novembro de 2009

Cinema


Bollywood nas paredes de Varanasi. A iconografia apropriada pelo quotidiano.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O outro lado do Vedanta


A montanha Niyamgiri em Orissa, na Índia, é o lar e o território dos Kondh uma das mais antigas comunidades da Índia. Este território, lugar sagrado de Niyam Raja, o Deus da Lei Universal, foi vendido a uma poderosa multinacional mineira que dá pelo nome de Vedanta detida por Anil Aggarwal, multimilionário indiano que vive em Londres na antiga casa do Xá da Pérsia. Arundathi Roy solicita a alguém que vá à próxima conferência de Copenhaga, sobre as alterações climáticas que pergunte se é possível, deixar a bauxite na montanha. Leia este magnífico ensaio sobre sustentabilidade e política.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Praxe

Cada vez me perturbam mais as praxes académicas. Agora deram em fazê-las, no Jardim do Campo Grande, já noite caída. São vários grupos de 5 ou 6 caloiros, comandados por um “sargento(a)” de capa e batina. Os caloiros ficam de mãos atrás das costas, cabisbaixos por ordem superior. O dito sargento manda “encher” como na tropa e os caloiros fazem flexões ao som dos gritos histéricos dos sargentos e das sargentas. Cantam canções que se ouvem nos filmes de fuzileiros americanos. O mesmo ritmo e a mesma intenção marcial. É degradante, humilhante e dá náuseas. Estes serão, os futuros e obedientes quadros das nossas empresas, os futuros professores das várias academias, os transmissores do conhecimento científico aos nossos filhos, os futuros licenciados nos vários ramos do conhecimento. Pobre conhecimento e pobre País!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Banalidadologia

Apetece-me falar desta nova tribo dos politólogos e analistas políticos que se reproduziram bastante nos últimos anos. A sua taxa de natalidade é muito superior à média nacional daí eu deduzir que o seu DNA também deva ser diferente do nosso. Têm uma coisa em comum: são reis do lugar...comum. Envergam a banalidade como colares de contas que trocam por uma cadeira frente a um qualquer microfone. Debitam conselhos mitigados e generalidades mastigadas como se fossem os anciãos desta etnia apolítica. Alguns, poucos, pela sua longa carreira, já fazem indisfarçadamente o papel de feiticeiros e é vê-los, nas grandes noites de ajuntamentos do povo nu, frente ao oráculo TV, debitar pedaços de futuro em forma de ses... e naturalmentes ... e eventualmentes.
Nesta roda de país à volta do fogo, dentro do fogo arrotam, como os curandeiros índios só que, neste caso, são postas de pescada em português vernáculo. Como nos livramos deles? Claro que só com uma magia mais forte e mais poderosa. Abro aqui um concurso de ideias sobre a melhor maneira de fazer, por artes mágicas, desaparecer do território mediático a tribo inimiga.

Gopal

Gopal é pan walla em Bhelupura, um dos bairros de Varanasi. A loja de Gopal consiste num plinto elevado, uma mesa baixa com pés de prata e os apetrechos para o fabrico do pan: folhas de pan, noz de betél, cal, tabaco de mascar, compota de rosa, folhas de menta, duas ou três pequenas taças de metal com uma espécie de pigmento comestível (é o segredo de Gopal). Gopal senta-se em padmasana (posição de lótus) por isso não há cadeiras. Diz-se que o pan de Varanasi é o melhor da Índia e, o pan de Gopal, é, certamente, o melhor de Varanasi. A sua mini loja é bastante concorrida sendo um local de conversa que se estende até o meio da rua. Gopal sorri constantemente e a coreografia dos gestos na preparação do pan é encantatória. Durante uns tempos fiquei viciado neste mitta pan que Gopal me preparava cada vez que saía de casa. O pan masca-se longa e docemente e cospe-se abundantemente deixando por toda a cidade marcas vermelhas características. Depois de uma tali bem picante, mascar esta folha com noz de betél e cal é uma frescura que inunda a boca e descontrai. O meu amigo Bruce dizia: if you chew five you can get high!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Virendraji


Virendra Singh é rajastani mas vive em Banaras há longos anos. É um dos mais conceituados professores de Hindi da cidade com um grande curriculum internacional. É leitor sénior da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos da América onde se desloca todos os anos.
Virendra tem 3 filhas e, por isso mesmo, grandes trabalhos lhe aconteceram com a quantificação e escolha dos dotes e com a organização dos casamentos. Oriundo de uma família tradicionalista rajastani estava, no entanto, aberto a todas as modernices que os seus estudantes de várias nacionalidades lhe davam a conhecer mas, no que respeita a namoro e casamento das filhas era assunto tabu. Nem as provocações que os estudantes lhe dirigiam: Virendra ji como se diz em Hindi casar fora da casta? — ou outras, o levavam a falar do assunto sem o peso da tradição e da família. A sua filha mais velha Kashika evidentemente que se enamorou de um jovem indiano, seu colega de faculdade, fazendo nascer uma relação completamente apaixonada e heterodoxa. Toda a família ficou contra ela, excepto as duas irmãs e os estudantes de Virendra que lhe davam toda a força. Virendra foi bastante pressionado mas ganhou a tradição e Kashika foi obrigada a casar, após um longo processo de identificação e escolha do noivo. Foi viver para Ajmer uma cidade do Rajastão ficando afastada da sua querida Banaras e dos contactos diversificados que a casa do pai lhe proporcionava. Kashika ficou triste e, ainda hoje, nos seus olhos grandes lagos negros emerge, entre sorrisos hospitaleiros, o peso do Dharma.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A nova biblioteca de Alexandria

O eurodeputado social-democrata e vice-presidente do partido Popular Europeu Mário David exorta Saramago a abdicar da nacionalidade portuguesa. Finalmente temos o nosso, verdadeiro, único, português jihadista. Até agora só o Lara se tinha assumido como fundamentalista. Agora, imaginem, um vice-presidente do PPE, reivindica para si a cruzada. Temos finalmente um fundamentalismo institucional, sério, politicamente correcto uma coisa de fazer inveja à Santa Sé. Convido o deputado Mário David a realizar uma cimeira mundial para a qual convidaria, a sugestão é minha, L.K. Advani e Narendra Modi do Baratha Janata Party da Índia, o Mulah Omar que se crê estará no Waziristão, o braço direito e esquerdo de Bin Laden o famoso médico egípcio Ayman al-Zawahiri, uns quantos rabinos e uns quantos padres católicos americanos, para ser uma coisa equilibrada. Ponto único dessa cimeira: como queimar ecologicamente os livros que são contra as respectivas ideias de igreja, uma espécie de incêndio da Nova Biblioteca de Alexandria mas sem emissão de carbono, por causa da taxa. Pense nisso Sr. Deputado, tenho a certeza de que seria um sucesso numa das próximas cimeiras do clima.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Falta de material

A semana passada ocorreu o Dia Internacional da Coluna. Esta semana o meu filho, que vai a pé para a escola, e todos os estudantes da idade dele, continuam a transportar quilos de material nas mochilas. Estas crianças fazem, durante anos, o papel de estivadores do conhecimento. Estas crianças serão os futuros clientes dos actuais estudantes da especialidade de Ortopedia. Do ponto de vista da empregabilidade quanto mais peso na mochila, mais mercado para os futuros médicos. É uma medida política de longo alcance e de rara visão económica mas, apesar de tudo, eu prefiro esqueletos escorreitos ainda que desempregados. Pergunto se não haverá uma maneira mais inteligente, mais saudável, menos lesiva dos esqueletos em desenvolvimento.
É possível as várias instituições envolvidas no processo educativo e de saúde pensarem um pouco sobre este assunto? Trata-se de formar cidadãos activos e saudáveis com o centro de gravidade no sítio certo. Trata-se do futuro. Nalgumas manhãs apetece-me dizer ao meu filho:
—Deixa tudo em casa que eu depois assino a caderneta!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Kaliyuga


“No fim da noite do tempo todas as coisas regressam a mim e, quando começa o novo dia do tempo, devolvo-as, outra vez à luz”
Sempre me fascinou a medida do tempo na cultura indiana. Gostava de vos dar a conhecer uma sistematização dessa medida.
Tomo como base o ano divino que é igual a 360 anos comuns.
As yugas são uma das divisões mais conhecidas
Kritayuga = 4800 anos divinos = 1.728.000 anos
Tetrayuga = 3600 anos divinos = 1.296.000 anos
Dwaparayuga = 2400 anos divinos = 864.000 anos
Kaliyuga (onde nos encontramos) = 1200 anos divinos = 432.000 anos
Considera-se que estamos (em 2009) no ano 5110 de Kaliyuga restando 426.890 anos para completar esta era negra.
Mahayuga ou Chaturyuga = 12.000 anos divinos = 4.320.000 anos
72 Mahayugas = Manvantara
14 Manvantaras = 1 Kalpa = 4.354.560.000 anos
1 Kalpa equivale a mil e oito Mahayugas e, assim, a cerca de doze milhões de anos divinos o que corresponde a um dia de Brahma.
Oito mil anos de Brahma é um Brahmayuga
Mil Brahmayugas = uma Savana
A vida de Brahama dura 3003 Savanas o equivalente a um dia de Mahavishnu, isto é, BUÉ DE ANOS, façam as contas que dá um número interessante.
A definição metafórica de Kalpa, período entre a concentração e a dissolução de um sistema, é dada por Siddharta Gautama, o Buda, do seguinte modo:
Imaginem uma montanha de rocha dura maior que os Himalaias. Imaginem igualmente um homem com uma peça de seda das mais finas de Banaras que, todos os cem anos, afaga a montanha com este tecido leve. O tempo que ele levaria para “gastar” a montanha seria semelhante a um Kalpa.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Este rio...


E este rio que corre, aqui em Banaras, de Sul para Norte. Este rio, cabelo de Xiva em cascata poderosa a despenhar-se sobre a terra em fragor imenso, não fora a deusa Ganga adoçá-lo na sua mão e aquietá-lo na planície. Este rio purificador que guarda silenciosamente mil preces quotidianas, mil oferendas de fogo e flores, mil cânticos, o Cosmos e o Eu. Este rio, altamente poluído, é o objecto de estudo do Dr. Veer Bhadra Mishra, professor de Hidráulica na Banaras Hindu University e, simultaneamente, sacerdote principal (Mahantji) do templo de Hanuman. Como engenheiro Bhadra Mishra tem encabeçado as campanhas de despoluição do rio e trabalha, há vários anos, nesse projecto. Mishraji é hindu e, todas as manhãs ao nascer do Sol, podemos encontrá-lo dentro do Ganges mergulhado nas suas preces e abluções.
Numa conversa atrevemo-nos a perguntar-lhe como consegue banhar-se no rio sabendo que “a deusa Ganga pode ser mortal”. Mahantji não vê contradição e acha que nós, ocidentais, somos cheios de dicotomias. Ele, sendo hindu, venera a Mãe Ganga, sendo engenheiro despolue-a. Problem nain hé!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lisboa

NÃO: Nada de proas homéricas singrando rio acima, batidas de ignotos mares, a fundar a capital do futuro Império-que-foi: mas um homem hirsuto e furtivo, talvez em busca da liberdade, que um dia assomou aqui e, com a mão afeita ao sílex, arredou o espesso canavial a olhar com espanto a serena e virgem expansão das águas, onde o sol se espelhava, quente e glorioso como um deus possessivo.
Ergueu a choça à beira-ria, ao abrigo do juncal, onde convergiam as águas dos abruptos morros e colinas. E constituiu família, pedra angular duma história e dum carácter. Tudo data da entrada em cena desse homem seminu e ungulino.
José Rodrigues Miguéis

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nobel Knorr

Eu acho que o que está errado é Obama não receber igualmente os prémios Nobel da Economia, Física, Química e Literatura. Afinal o que o Mundo precisa não é de pessoas que trabalhem no terreno, que investiguem que afrontem a prisão, a ditadura, a repressão, que lutem e mobilizem outros em torno de nobres ideais. O que o Mundo precisa afinal é de um messias e da sua "bíblia". O Mundo está outra vez à procura de Deus, de soluções mágicas, rápidas e com boa pinta no écran. Boas notícias para os produtores de sopas instantâneas. Afinal a slow food já era.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sobre a pobreza

Que capacidade é esta que tem a nossa espécie de tornar transparente, imaterial e nulo o que não queremos ver. Ignoramos os olhos estiolados do cego no swing da esmola. Atravessamos o espaço dos sem-abrigo cientes de que se trata de uma condição provisória, filosófica ou acidental. Somos incapazes de estender a mão a quem está caído porque terá uma doença contagiosa, estará bêbedo ou drogado ou vai lançar-nos um mau olhado, ou é seguramente estrangeiro, ou... Queremos convencer-nos que dantes não era assim. Claro que havia mecanismos sociais que se perderam, a sopa semanal do pobre, a esmola periódica mas, de resto, esta capacidade Photoshop de tornar transparente a camada mais dura do real, sempre fez parte de nós. Chamamos aos pobres socialmente desfavorecidos porque gostamos de adjectivar a vergonha. Quantos de nós já cheiraram a pobreza ou conviveram com a barraca de telhado de zinco ou tomaram uma refeição parca mergulhando nos olhos famintos dos cães? A pobreza real está escondida como as castas intocáveis que moram longe. Ouvimos falar da pobreza através de declarações ora ofensivas ora compreensivas, através da burocracia legal e temos opiniões também elas fortemente adjectivadas e, muitas vezes, fascizantes. A pobreza é como se fossem os outros, não nós, os outros, aqueles que não conseguiram, os outros portanto, outra espécie de homens que não evoluíram e que temos que ajudar de longe. Nós seres humanos não somos melhores que isto. Somos isto. Claro que somos igualmente capazes de belas e heróicas acções mas estamos longe do básico que tem séculos — Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bica em chávena escaldada na Brasileira do Chiado

Magistral lição de ética política para alunos relapsos ou Cardeal Louçã acolitado pelo Bispo Jerónimo, excomungam o laico Carvalho da Silva ou...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Silêncio

Deslocalizei o meu blogue da Índia para Portugal para poder postar (palavra feia) sobre a campanha eleitoral. Foi um mês animado e ruidoso, pobre de ideias, cheio de agitprop, rico de partilha e de leituras diversas do real. Aprendi muito na blogosfera política. Chegou a hora de voltar a localizar-me na Índia que é a origem deste blogue que tem o subtítulo simbólico de Reflexões de um Ocidental à Ilharga do Mar Arábico. Mantendo em aberto as incursões neste quotidiano chegou a hora de relocalizar-me no silêncio, num outro silêncio à ilharga de outros mares.
Silêncio é quando o meu Prana atravessa outro corpo e toca na célula descansando-a. Silêncio é encontrar o caminhos dos canais nos pântanos de músculos e nervos e prosseguir na direcção certa. Silêncio é ouvir-se respirar e expandir, ao infinito, o espaço entre inspirar e expirar. Silêncio é soltar a energia quando o perfume do Mundo se apresenta, calado, diante de nós. Silêncio é ouvir mar nas noites de marés vivas. Silêncio é quando entro dentro de mim no Tao e a energia flui.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pesquisas arqueológicas

Agora que foi “encontrada” Ardi, a bisavó de Lucy, a mais antiga antepassada do homem, em Portugal procuram-se documentos sobre a venda de submarinos. Como se discutiu na altura não podiamos passar sem submarinos. Como contar os nossos peixinhos, como visitar a colecção de búzios nacional, como combater os exércitos submarinos de Sauron ou o Lado Negro da Força sem os nossos submarinos. Estes documentos não têm quatro milhões de anos mas são tão inatingíveis como o link perdido entre o macaco e o homem. Trata-se de um pequeno buraco de 34 milhões de euros, graves suspeitas de corrupção e branqueamento. O que é isso comparado com um periscópio bem assestado sobre as forças invasoras?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cavaco falou?

Foi tão bom o Presidente ter partilhado comigo as suas inquietações. Senti-me tão importante e tão português. E não privilegiou os jornalistas, falou só para mim, povo. Eu povo agradeço e estou disposto a ouvir o que o sr. presidente tem afinal a dizer sobre as escutas, sobre o seu assessor e sobre as graves hipóteses levantadas nestes últimos dias. Pode ser amanhã sr. presidente por causa da campanha em curso? Obrigado, lá estarei em frente do televisor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Assim sendo

Assim sendo o País vai parar. Vamos cavalgar a epidemia de gripe conjuntamente com a pulverização de lugares na Assembleia da República. Que pena que eu tenho que os pequenos partidos também não tenham ajudado a roubar votos ao PS. A verdadeira democracia seria afinal que cada concorrente ficasse com igual número de lugares. Assim seria o total equilíbrio e a total ingovernabilidade e o PR apareceria então, acolitado pelos pastorinhos de Fátima, com a sua verdadeira aura de salvador da Pátria. O País vai parar porque não será possível obter acordos estratégicos, com interesse nacional, de progresso e de desenvolvimento neste contexto parlamentar. O País vai parar até às eleições intercalares ou este governo durará quatro anos sem que nada aconteça de minimamente relevante para os cidadãos. Vamos hibernar o que tem as suas vantagens na economia de energia e de gordura. Seremos campeões das maratonas parlamentares. Avizinham-se extensos discursos, noites dentro, para a aprovação de leis mínimas. Vegetaremos politicamente mas as televisões serão ultra-criativas no encontro de soluções baratas de entretenimento e de diversão erótico-popular. Ganharemos imensos concursos Guiness, imensos concursos de modelos anoréticos. Exportaremos desfaçatez, petulância, vigarice, futilidade, tias, arrotos e cuspidelas para o chão para equilibrar a balança de pagamentos. Podia ser pior.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Período de reflexão

António queres vir beber um copo ao Bairro? — Não posso estou a reflectir!
Maria Antónia estava a pensar ir até à Expo com os putos queres vir? — Eu bem que gostaria mas estou a reflectir!
Este período de reflexão é essencial à democracia portuguesa. Ele é vê-los cabisbaixos na praia, cabeça apoiada na mão, cabeça fragilizada pelo peso da decisão, num esforço de concentração e contenção próprio de uma democracia madura. Se não fosse este dia de reflexão não duvido que os maiores erros seriam cometidos no acto eleitoral e os resultados seriam completamente diferentes. Imagino os votantes quando colocam a definitiva cruz no seu boletim de voto a dizerem com um ar aliviado para si próprios...ainda bem que eu reflecti. O resultados finais são, como se sabe, o produto deste dia de uma profunda reflexão dos cidadãos que, em comunhão consigo próprios e com o Deus do seu partido apõem uma cruz laica num boletim todo ele carregado de ideologia. Assim e reflectidamente se exercerá o poder democrático do cidadão por quatro longos anos.

Palha

— Pois tá bém de ver...tive que furtar a palha porque o sr. Ministro nã distribuiu os subsídios e coma diz o mê companhêro “Cabe à Justiça e a Deus julgarem o acto". Da parte de Deus estou eu descansado agora da parte da justiça...porrã!
—Se o CDS não subir os impostos não vão descer!
José Manuel Fernandes, Pacheco Pereira e Lobo Xavier num jantar-debate da coligação autárquica PSD/CDS. Sobremesa: "escutas" como o "pior problema da campanha".
Francisco Louçã e Paulo Portas inteiramente preparados para serem Primeiro Ministro.
Jardim grita para Belém sobre a hipotética presença de “comunistas” no Governo.
O assessor de Cavaco mantêm-se em Belém a aviar pastéis.
Manuela Ferreira Leite já ganhou.
Jerónimo quer mais seis deputados.
Santa Luzia me ilumine que eu já não os posso ouvir!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Acordo Ortográfico


Reparem como o desenho do U sugere infinitas descobertas em recantos ocultos, enquanto o desenho do O é fechado, hermético, frio e sem mistério. Amu-te com U é amor de pele, de cheiro, de descansar no outro corpo enquanto que amo-te com O é lógico, racional, platónico, o contrário da paixão. Vale a pena propôr à Academia que se passe a escrever: amu o Acordo Ortográfico, afinal não é mais do que o que faz o Brasil que escreve como diz.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Afinal Cavaco vota PS

Estávamos todos enganados, eu próprio sugeri ao Sr. que resignasse num anterior post. Não percebo nada de política. Só um visionário genial como Pacheco Pereira intuiu a verdade. Estas várias atitudes da Presidência da República destinaram-se tão só a levar os eleitores a descredibilizar Manuela Ferreira Leite e a votarem PS. É uma manobra de alta política e de fino recorte estratégico. Manuela Ferreira Leite, montou-se nos incidentes e acidentes vários não percebendo que o seu mentor lhe estava a armar uma teia onde ela está todos os dias a cair. Por isso não esqueçam, os votos a mais que o PS obtiver nestas eleições, deve-os ao PR. Assim se cumpre a cooperação institucional. Obrigado sr. Presidente!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Olho no blogue

Há quem esteja de olho neste blogue. Se o blogue fosse da Manuela, ela diria que a estavam a asfixiar, democraticamente, claro. Eu pelo contrário agradeço os olhares pousados neste Ayyapa que é, por definição, alguém em peregrinação, como tal difícil que lhe ponham a vista em cima. Estas várias indicações, OLHO NESSE BLOG, BLOG VICIANTE e outras afirmam, entre outras coisas, uma partilha e uma vitalidade neste universo blóguico que é muito estimulante. Além de afagarem os egos o que é sempre positivo, desafiam a prosseguir com mais qualidade porque ficamos com a certeza que, afinal, alguém lê. Obrigado. Como compete, aqui vão alguns blogues que merecem o olhar.
Restolhando
Delito de opinião
Puxa palavra
A nossa candeia
Escada de Penrose
Valor das ideias
Der Terrorist

domingo, 20 de setembro de 2009

Américo Cavaco da Silva Tomás

Estou, de novo, com vergonha de ser português. Durante o Estado Novo ter um Presidente que visitava os lugares, repetia as frases das anteriores visitas e falava nos canários, piriquitos digo, de um qualquer Almirante, dava bastante vergonha mas era uma vergonha envergonhada e silenciosa. Responder aos amigos estrangeiros sobre as guerras em África, sobre Nambuangongo, sobre Wiriamu, provocava uma vergonha dolorosa e difíceis explicações sociopolíticas. Agora, desde a eleição de Cavaco Silva que voltei a ter vergonha de ser português e representado por tal figura. O homem não tem estatuto, nem elevação nem cultura para ser o meu representante em nenhum fórum. O homem, ainda por cima, é um "conspirador" que diz que vai averiguar em tempo útil as questões de segurança.
— Ó Lima o que é que temos aí que possa atrasar a situação?
— Só temos uma coisa já velha... aquilo do assessor na mesa errada.
— Pois que seja isso, já que não há mais nada... aquela Manuela só faz disparates em alta velocidade.
O PR perdeu qualquer credibilidade e isenção depois de tudo o que aconteceu e que tem sido noticiado e das suas não-atitudes. O artigo de Emídio Rangel é claríssimo. Sr. Américo Cavaco da Silva Tomás, resigne.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Os inúteis professores votam útil

Temos os nossos filhos entregues a estes utilitários. Os movimentos independentes de professores aconselham o voto útil. "o mais importante é penalizar o PS", dizem. Isto é, se no seu distrito, caro possível professor do meu filho, tiver possibilidade de ganhar o PC, vote PC, se for o Bloco, vote Bloco, se for PSD, vote PSD e assim sucessivamente. O seu pensamento, a sua ideologia, a sua ética política não interessam nada, o que interessa é prejudicar o partido que governa o que os quer avaliar e dar trabalho. Dizem que os professores têm um papel muito importante na sociedade, são os garantes e os transmissores dos valores éticos, morais e culturais desempenhando assim um importante papel na coesão social. Esta lição do mais reles oportunismo e do grau zero da cidadania que nos dá o movimento de professores independentes, é um poderoso indicador de que devemos tirar os nossos filhos da escola.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Providência cautelar

À cautela também acho melhor suspender as eleições. Está tudo a correr tão de feição: Manuela Ferreira Leite arranjou um sorriso esticado e sentido de humor, Sócrates até já fala baixinho e não usa tanto o indicador, Paulo Portas está preparado para ser Primeiro Ministro (não é uma piada esmiuçada), Cavaco Silva, ou melhor, um assessor do PR, faz um discurso tipo Obama branco onde pretende ter piada. Apenas Jerónimo se mantém igual a si próprio e Louçã sempre messiânico acima de sorrisos ou de semblantes carregados. Concordo com a providência cautelar apresentada por uma frente de pequenos partidos que se sentem injustiçados por não poderem comunicar ao povo as suas originais visões estratégicas. Imaginemos que as eleições eram suspensas por um ano e que os políticos continuavam a vestir a pele de assistentes de gatos fedorentos...tirando o mau cheiro, não era extraordinário?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não, não queremos

Não, não queremos ser governados por si. A senhora cheira a Câmara Corporativa e a Portugal dos Pequeninos, tresanda a Movimento Nacional Feminino e daria uma excelente madrinha de guerra não duvido. Não, não queremos ser governados por si porque em política não vale tudo, mesmo em campanha eleitoral, diria até, sobretudo em campanha eleitoral. A senhora asfixia a decência quando fala em asfixia democrática, quando se pronuncia sobre o TGV, quando se pronuncia sobre os pobres, sobre as PME, quando compara a liberdade de expressão na Madeira e no Continente. O seu discurso é antigo, bolorento e bafiento, manhoso, já ouvido em RTPês a preto e branco. É o discurso de um pequeno Portugal analfabeto e colonial que não queremos ouvir de novo. Já sabemos onde ele nos conduz. Não, não queremos ser governados por si porque queremos ser sérios, competentes, europeus, modernos, ousados, rebeldes, habitantes deste milénio e deste Mundo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Étês (eleitores)

Esqueçam as marcas misteriosas no planalto andino, enterrem a caveira de cristal e Indiana Jones, desdenhem dos vários comités UFO no Mundo porque eu tenho uma teoria: os únicos e confirmados seres extra terrestres, habitaram Portugal no século XVI. D. Manuel I, Garcia de Orta, Fernão Mendes Pinto e mais uns poucos, não eram terráqueos muito menos portugueses. Portugueses de gema são por exemplo o Zé que tem um pequeno negócio:
— Quem eu ...fosca-se...facturas? para encher a barriga do Governo...da-se. Agora ao menos parece que isto vai mudar.
Ou a Zézinha que tem uma boutique de Outlet:
— Ó querido se não fosse o meu contabilista eu tinha lá dinheiro para estes sapatos e quanto é que pensas que custa a revisão do Audi...
— Sim, sim claro que sou pela despenalização, assim já posso vender sem ter a bófia sempre a fancos, este Governo é muito repressivo e autoritário, impede a liberdade comercial.
— Se recebi prémio este ano...naturalmente, compreenderá que a actividade bancária é ...sei lá ...eu até a comparava com a dos repórteres de guerra...é muito desgastante.
— O negócio está mau...isto não dá nada...estou asfixiado...veja bem que só conseguiu ir de férias para o México com a família e isso graças a ter ficado com o abaixamento do IVA. Se vou reflectir isso nos clientes...tábemtá. Sim espero que ganhe a senhora claro...estes do Sócrates estão sempre em cima de quem trabalha.
— Eu...não sei se diga afinal o voto é secreto...é PS...sim as minhas amigas também...adoramos a Carolina... o programa? Bem não li mas a minha tia leu e acha o máximo.
— Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo... Jerónimo
Mas o que é que o leva a votar CDU? — Jerónimo... Jerónimo...
— O Programa do Bloco...sim e não vamos lá ver as coisas são como são, ele há alturas em que é preciso tomar uma atitude ou o amigo não acha que a direita está a tomar conta disto?
Esta é uma pequena amostra dos portugueses suaves, os verdadeiros, aqueles que votam acertadamente e elegem outros portugueses verdadeiros, talvez não tão suaves mas genuínos. Gente prosaica que não se mete em aventuras marítimas. O português suave não mete água!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

La gauche c'est moi!

Li atentamente a entrevista de Francisco Louça ao Público de hoje, 8 de Agosto. Li e fiquei preocupado com a falta de lucidez e de inteligência política de um homem de esquerda. Simultaneamente surpreendeu-me a coerência e a fidelidade cega e serôdia à linha politica trotskista. A ideia é então partir o PS por dentro, rejeitar o que dele não é esquerda pura e tentar arregimentar, para a sua causa, a esquerda desiludida do socratismo. Bom tópico para um seminário na Zambujeira do Mar, mas fraco como politica eleitoral do concreto e do real português de hoje. Francisco Louça confunde o PS com alguns dos seus quadros dirigentes e esquece que o PS é também e isto não é de todo despiciendo, movimento de massas, fortes dinâmicas de pessoas.
Louça afirma “ a esquerda precisa sobretudo de ter uma força para a maioria. Essa força não é o PS.” ou “ a nossa competição é com o PS e o PSD”. Colocando no mesmo prato PS e PSD Louça continua, como Miguel Vale de Almeida escreveu, na lógica do “quanto mais dificuldades e tensões sociais melhor”, na lógica do aparelho PSR, numa estratégia cega e perigosa face à actual situação politica.
Ainda não perdi a esperança de ouvir Louça dizer numa visita ao Palácio de Queluz: La gauche c’est moi.

sábado, 5 de setembro de 2009

Étês (eleitos)




É uma típica família portuguesa. A mãe, o tio, o filho e dois sobrinhos. É uma família monoparental daquelas que dão aerofagia ao Cavaco: “neste período pré-eleitoral o Presidente da República humm não comenta humm a composição das humm famílias. Os portugueses e as portuguesas sabem humm a minha opinião”. Apesar disto é esta família que vai a votos. A mãe dá recados e, como não podia deixar de ser tem uns cartazes com uma linha gráfica clássica. A mãe não diz ao que vem mas aconselha: “façam politica com as pessoas”, “prometam só o que podem cumprir”, meus filhos, acrescento eu. O tio, igualmente numa linha gráfica clássica, imagem à direita/centro texto à esquerda, plano médio mais busto que outra coisa. O tio afirma que é possível uma vida melhor e é, não tenho dúvida. Ó tio porque é que não se inspira nos cartazes da revolução soviética?
O filho aproxima-se em grande plano e deixa a pairar um conceito abstracto para a masturbação dos urbano-depressivos e das várias Carolinas, “avançar Portugal”, yá, vou pôr no meu próximo rap. O sobrinho dilecto não dá a cara, ele é só script cretino e provocador. Apetece perguntar porque que o P. é mais fascista que o P. O outro sobrinho, mais modernaço apesar de messiânico, grande plano cortado com a banalidade “justiça na economia” quando o slogan adequado seria Justiça Economia. Estes vão ser os eleitos principais. O restante casting está para se ver e ouvir mas pelo andar da carruagem não esperem coisas originais.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vou deslocalizar-me

Sempre fui contra esta atitude anti-económica mas o período que se avizinha levou-me a tomar, a contragosto, esta penosa decisão. Este blogue que é sobre a Índia vai deslocalizar-se para outro continente. As multinacionais deslocam-se para o cu de Judas, eu vou reiniciar as minhas actividades no cu da Europa, em Portugal. Sei que é um movimento que está ao arrepio de todas as teorias neo-liberais mas ...que fazer? Impensável perder as oportunidades de negócio que se avizinham com a campanha eleitoral em Portugal. Que prado de ideias para textos e para imagens, que manancial tão rico para a crítica e para a pura maledicência. Nem este microblogue poderia perder tal oportunidade. Que me desculpem os meus leitores indianistas mas...vou deslocalizar-me. Prometo que será apenas até que Cavaco anuncie a constituição de um governo indigitado por si próprio ou pelo PS. Depois, regresso à mãe Índia porque isto aqui vai ficar impossível de habitar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


A Nossa Candeia agraciou-nos com o selo "O Seu Blog É Viciante"...
Este Prémio "Seu Blog É Viciante", resulta na comunhão de 3 princípios que são um compromisso:
a) Contribuir para divulgar a defesa do ambiente e do equilíbrio do nosso planeta;
b) Contribuir para a consciencialização da necessidade de uma Humanidade mais justa;
c) Melhorar a qualidade deste blogue;
Faz parte das regras relativas a este selo indicar outros dez blogues que o mereçam. Fá-lo-ei posteriormente.
Sou como é evidente, favorável a estas toxicodependências e, critico, as drogas de substituição. Agradeço do coração ao A Nossa Candeia e vou esforçar-me para continuar a produzir material com elevado grau de pureza.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A mãe

É um facto que a Ásia, particularmente a Índia é profícua em mulheres nos vários níveis do poder. Duvido que os orientais elegessem Manuela Ferreira Leite. Mas, em Portugal a mãe vai dizer ao povo, a VERDADE. Sem comícios que possam despentear a laca da rigidez. A mãe e muitos assessores a que o povo chamará tios, redigiu um programa mínimo dois em um. Santana apoia, Pacheco engole, Cavaco ( e o que ele se tem contido), está danado para poder anunciar ao país que a sua amiga foi indigitada para formar governo no qual, ele Cavaco, não desdenharia da pasta de Ministro do Interior.
A mãe vai dizer uma série de banalidades salazarentas como as mães costumam dizer aos bebés: suspenderei de imediato a avaliação de professores...os meus pequeninos são todos bons e óptimos e esse papão é que vos quer fazer passar por pessoas normais; o aeroporto vou fazê-lo às mijinhas meu pequerrucho que uma coisa tão grande assim não pode ser feita de seguida não é meu amor. E por aí adiante. O grave é que os políticos não percebem estes fenómenos básicos da segurança, do seio e do colo. Portugal está na merda, o Mundo idem e sabemos que, se a ocasião se proporcionar, os homens farão a história andar para trás com a mesma facilidade com que bebem uma bejeca com tremoços na tasca do Aníbal.
A direita faz o seu papel de predador. O que me incomoda são as posições dos partidos de “esquerda”. O Sr. Jerónimo não leu os clássicos com atenção porque se o tivesse feito (em vez de ler todas as obras de Cunhal), perceberia que há momentos em que a História (o que quer que isso seja) exige, neste caso da parte do PC, que se alie temporariamente com o seu inimigo de classe com vista a ultrapassar uma muito difícil, única e temporária situação. Que “frentise” com claros e límpidos objectivos, escalonados no seu âmbito e no seu tempo.
O puto Louçã anda há uns meses, assim que acorda de manhã, com aquela mania: hoje vou roubar 3 militantes ao PS. O puto Louçã também não leu os clássicos mas é natural, ainda não estão publicados e digitalizados nas diversas bibliotecas on-line e, que se saiba não há e-learning no FaceBook. O puto Louçã tem que saber distinguir uma coisa básica para os trotskistas que é a definição de inimigo principal sob pena de passarem a considerar afinal, Stalin um gajo porreiro. Desde que entrou nesta coisa da democracia parlamentar o rapaz anda com os conceitos baralhados. Mas surpreende-me a falta de visão e de estratégia nacionais em favor de uma lógica de aparelho. Na minha inocência e ignorância pensava que era uma atitude politica enterrada desde, para ser razoável, o fim dos anos sessenta. Mas enganei-me mais uma vez. Este já longo palavreado vai levar os leitores a pensar que serei um indefectível PS e que amo os inefáveis Lellos e Canas que têm aquele slogan — Largo do Rato forever. Enganam-se, aliás devo dizer que a única vez que fui despedido de um emprego foi pelo PS há já um par de anos. Vejam lá se acordam porque, até por uma questão estética, não me apetece ligar a televisão e levar com a cara da dirigente do PSD em mais uma conversa com os tios.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Auroville 3


Esta árvore convida a viver aqui!

domingo, 23 de agosto de 2009

Auroville 2


O modelo de cidade ocidental, grandes conjuntos de ruas, grandes conjuntos de prédios, grandes vias de trânsito, num sítio dorme-se, noutro trabalha-se, vagas de cidadãos que se deslocam numa direcção a uma dada hora e, mais tarde depois de um dia de actividade e almoços de pé, deslocam-se na direcção contrária, ralos e parcos espaços verdes, este modelo não é o modelo de Auroville. Aqui o espaço projectado para 50.000 pessoas desenvolve-se em forma de galáxia com vários ramos de espiral onde coexistem a zona residencial, a zona internacional, a zona industrial e a zona cultural. Não há espaços verdes, isto é, a cidade está dentro da floresta, as confrontações respiram, os parques são apenas zonas de floresta ainda mais densa. Há comunidades onde o vizinho mais próximo está a alguns quilómetros. Noutras zonas a densidade é maior mas humana.
"Our home, this forest, with its thousand cries
And the whisper of the wind among the leaves
And through rifts in emerald scene, the evening sky,
God's canopy of blue sheltering our lives…"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Auroville 1



Tenho saudades de Auroville. Saudades de um território que, há 40 anos era um planalto seco, erodido, escalavrado pela monção, rocha nua sonhando com verde. Esta cidade (não sei se lhe posso chamar assim), este modo novo de vida a pensar num homem igualmente novo nasceu da visão de Sri Aurobindo, pensador e poeta indiano, e de Mirra Alfassa, La Mère, sua discípula. O projecto Auroville – cidade universal em construção, desenvolve-se no Tamil Nadu junto a Pondicherry uma antiga colónia francesa na costa do Coromandel no Sul da Índia, 160 quilómetros a Sul de Chennai.
Diz a Carta de Auroville:
“Auroville quer ser uma cidade universal onde mulheres e homens de todos os países possam viver em paz e progressiva harmonia independentemente da sua crenças, políticas e nacionalidades. O objectivo de Auroville é o de realizar a unidade humana”. Hoje, o território recuperou a floresta tropical antiga graças ao trabalho incansável dos pioneiros que, desde 1968, têm plantado milhões de árvores.
Arquitectura inovadora, políticas de sustentabilidade, invenção de novos materiais, educação sem limites são, entre outras, algumas das actividades que informam e alimentam, desde o início, este projecto. No ano passado passei alguns meses nesta cidade num sítio chamado Sri Ma, junto ao Golfo de Bengala, numa extraordinária casa de um italiano, Daniel, que vive em Auroville há cerca de vinte anos. Esta casa foi atravessada pelo tsunami em 2004. O mar entrou, levou a mobília, os objectos e as roupas, voltou a sair deixando a casa despida. Uma estátua de Vishnu sorvendo o oceano, uma das imagens da mitologia hindu, foi encontrada, de pé, encravada entre os troncos das palmeiras. Daniel desfez-se imediatamente da estátua...pero que las ai, ai!
Fotos site Auroville.org

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O templo do contrabando

Abriu em Goa o templo do contrabando. É um museu que dá a ver os objectos de grande valor, recuperados pelas autoridades bem como as técnicas, sistemas e truques com que os contrabandistas tentaram enganar as alfândegas indianas nas últimas décadas.
Seria um exemplo a seguir por Portugal, não no campo dos objectos artísticos desviados (só nos roubam a já pouca arte sacra que resta), mas no domínio das técnicas e sistemas da fraude financeira e económica. Temos aí um vasto campo e até podemos ser inovadores nesta museologia. Proponho então construir em Oeiras ou no Funchal um grande espaço cultural e pedagógico que evidencie os modos de por exemplo ser administrador de um banco e desconhecer o que lá se passa, de montar uma off-shore transparente e intocável, de fazer desaparecer milhões de euros e não ser possível encontrar o seu rasto. Este “templo dos vigaristas” não seria apenas um espaço cultural morto e de observação. Ele proporia formação avançada a candidatos seleccionados. Esta parceria entre os Ministérios da Cultura e das Finanças desenvolveria pós-graduações em “Vá para um off-shore cá dentro”, “Assine à confiança documentos inexistentes”, entre outros. Estudaria, com outros museus congéneres, pós-doutoramentos em Pirataria internacional, Ajuda Desinteressada aos Países em Vias de Desenvolvimento e Redesign de ONG (organizações não governáveis). Para o lançamento do projecto proponho a deslocação a Goa, para a realização de vários seminários, das dezenas de técnicos altamente especializados na área.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Rituais védicos de lusco-fusco 2


E fazem-se ao caminho por muito tempo. Um grupo segue os cursos de água, outro o perfil das montanhas. Percebem que é uma terra fértil, engordam homens e animais. Há tantas gerações que caminham que talvez tenha chegado o momento de assentar as palavras e os ritos coleccionados. Os xamãs, olhando os astros concordam que o local é propício. Acampam. Invocações prolongadas são feitas ao Sol, à Lua, aos ventos frescos do Norte, às águas poderosas dos rios. Tudo parece conforme com a coisa cósmica. Resolvem ficar. Inventam alfabetos e habitações precárias, fabricam utensílios próprios de gente sedentária. Com os outros habitantes da planície trocam mais intensamente línguas, costumes, invocações, afectos. Fixam em longos e sonoros textos de rigorosa métrica o que sabem do Mundo, o que lhes foi revelado na busca incessante dos caminhos do mito. Através de sacrifícios abrem uma porta de futuro que ainda hoje se não fechou.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Rituais védicos de lusco-fusco 1


Imagino clãs em deslocação, atravessando a planície indo-gangética com rebanhos e parcos pertences. Na cabeça dos xamãs, uma parafernália de material “sruti” (revelado): mantras, invocações, entidades naturais aliadas e inimigas, sombras e penumbras que apoquentam o ser, ameaças de regresso ao fim da noite dos tempos quando todas as coisas regressam a Brahma ou, pelo contrário, auroras radiosas quando tudo é devolvido à luz e o novo dia começa, e a busca incessante e calma continua. Imagino pequenos objectos de madeira, produto do mais escrupuloso e ióguico projecto de design industrial duma qualquer Bauhaus com sede em Meru; pequenos objectos de oferta do fogo ao fogo, da água às águas exangues de um Ganges que ainda não se chamaria assim, de oferendas de manteiga para temperar os cogumelos - Soma que tornam líricas e atormentadas as invocações de deuses sem silhueta. Imagino o mistério quando, no auge da monção, um relâmpago incendeia a pradaria e Agni, soprado por Vayu, empurra esta caravana para terras e abrigos impuros, causando consternação e profunda tristeza nos clãs. Imagino a invenção de mantras e a recordação de outros tão longínquos que o som se materializa em quadrado desenhado no chão e o Oriente é propiciador de purificações demoradas e sentidas. Imagino a inquietação dentro das auroras prolongadas, no limbo dos crepúsculos misteriosos, quando o Sol se faz Lua e os animais se aquietam mortalmente. Imagino que atravessam um rio e que o povo amedrontado paralisa a sua marcha até que o Sol volta a viver e ninguém sabe para onde foi a Lua e os pássaros gritam de novo.
Imagino que se cruzam com muitas outras gentes, com muitas outras línguas que acampam longe mas suficientemente perto para mostrarem os cavalos e as vacas espantando autóctones dravídicos que, por sua vez, inventam também novos rituais. Purificam-se quando chegam, purificam-se quando partem e escrevem na memória novas palavras, novos ritos, novas formas de protecção. E fazem-se ao caminho.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Homenagem tardia a R. das Gupta

Jornada a um lugar de passagem, tirtha yatra, é, no hinduísmo, o conceito clássico de peregrinação. Esta noção de tirtha significa ainda, o atravessamento, depois da morte, do rio imaginário Vaitarani que corre entre a terra e o mundo subterrâneo, governado por Yama, o deus da morte.
Ou a barca do inferno e a barca do céu em Gil Vicente e os vários rios que correm para oceanos de transcendência em várias culturas.
O professor das Gupta foi cremado nas margens do Ganges, em Varanasi, a sua cidade, depois de ter abandonado há muitos anos, o Bengaladesh.
Na cidade da luz, das Gupta, hindu, ensinava a arte e os rituais dos Gregos e dos Romanos e uma extraordinária cadeira chamada Arquitectura Indo-Islâmica, com uma paixão nos olhos transparentes igual à luz do Taj Mahal. Ser cremado em Banaras significa, segundo a mitologia hindu, não voltar a renascer, libertar-se deste ciclo infindável de transmigrações e de sucessivas purificações do karma. O karma de das Gupta já era tão puro que mesmo que tivesse sido cremado noutro sítio, iria directamente para o território das almas limpas. Namasté das Gupta ji.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Carta aberta ao Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros

A minha amiga russa, Ana e o seu filho, não me podem vir visitar. Eu estou sedentário dentro da fortaleza Schengen, a minha amiga russa, vive em Auroville na Índia. Estava a viajar pela Turquia e decidiu vir até Portugal. Informei-me no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras dos documentos necessários e, tenho pronto para lhe enviar, um Termo de Responsabilidade, apesar da sua assaz confortável conta bancária. O Consulado português de Esmirna não lhe concede o visto com o argumento de que não é residente na Turquia e, assim sendo, deve solicitar o visto na Índia que é o seu actual local de residência. Coisa prática e bastante exequível como se compreende! Se não fosse a nossa europeia configuração facial, diria que esta cena se passava na Coreia do Norte e que o regime acharia que a minha amiga russa era espiã ou emigrante económica que iria colocar no desemprego um zeloso funcionário do Partido. Não tendo os olhos amendoados pergunto como é que ainda há turistas que visitam a Europa? Assim sendo e para honrar a "segurança" e a "integridade" do espaço concentracionário Schengen, serei eu a visitar a minha amiga russa na Índia ou em qualquer outro país fora do bunker. Não posso terminar sem me congratular e dar uns vivas a esta fortaleza europeia que nos protege dos estrangeiros malfeitores e, possivelmente, terroristas. Parafraseando outro "querido" que mil outros espaços Schengen floresçam.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Comunicação visual 3


Agora que se aproxima um tempo insuportável de venda de políticos, sugiro este estilo monumental para quebrar a monotonia e combater a crise. Imaginem a Dona Manuela de sari a rasgar a casta dos banqueiros ou o Doutor Paulo com uns óculos escuros como se vê na imagem, à porta de mais uma deslocalizada multinacional de relógios.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Democracy's Failing Light


Aponto para este pertinente e objectivo ensaio da escritora Arundhati Roy sobre o estado da democracia na Índia. Ler e reflectir.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A estética das civilizações sentadas


Gestos fluidos, roçagar de panos imateriais.
Recortes no ar das mãos do Tao.
Ligação braço, pulso, mão, em osso frágil
como quem desenha.
Forma tão solta: os contornos andam no ar até que
a figura se materialize na postura ancestral do animal mitológico.
O tigre sai da montanha e o elefante espera.
Acocoramentos na cozinha à volta das frigideiras
em jogo do pau e o forno é terra.
Floreados de legumes como em Angkor Wat.
Pelas praças calcetadas a negro basalto e branco luz,
deslizam azuis sazonais e nostálgicos.
Donde terá vindo esta árvore tão exótica
que motiva esta intercepção textual como quem vai ao cinema.
Não sei porquê recordo Dien-Bien-Phu e a paciência
estratégica do povo de Hô-Chi-Min. Imagino o silêncio,
a camuflagem, a progressão lentíssima, a alimentação precária,
o sono sobressaltado debaixo dos jacarandás,
ou, pelo contrário, o general Giap de camuflado azul,
tentando passar despercebido na Praça do Correio-Mór e,
de seguida, tomar de assalto a Sé de Lisboa
sem armas nem canhões, de mãos nuas.

Sei porque recordo o meu Mestre Nguyên Duc Môc que
me ensinou o pássaro e o peixe dentro de nós,
a ilusão do corpo, uma espécie de aura
onde não estamos e, dizia-me:
-podes ser dragão.
Quando o sémen da papaia se gruda
na folha verde luxúria, na folha verde
que estremece apenas e, tumescente, escorre
pela mão aberta e curiosa, só então se entende
o desenho dos telhados dos pagodes,
revirados para o centro, para que a energia se não escape.
E a mão-folha, cola-se à polpa dos dedos
como quem experimenta e, sob os olhos adolescentes,
desfila o futuro do corpo.
As figuras de pedra de seios amputados
pela iconografia proscrita, observam o tempo desse olhar.
Lentamente, sabendo do fogo e dos véus.
Tantos homens passaram por aqui. O que disseram?
Alguns afagaram com mãos de pedra um sorriso antigo
à beira das estátuas, no abismo das civilizações e,
com a morte na boca, prosseguiram.
Outros perderam-se nas areias movediças
das cidades soterradas. O sangue
dos camelos empapou as planícies amarelas.
Fez-se verde pela madrugada. Brotou o grão.
Outros, tantos e tantos, cegos, tactearam
os templos e as árvores, o fruto e o texto,
a febre e o Sol. De nada lhes serviu.
Riram-se, quando ouviram a história do monge
aprendiz que não conseguia meditar.
— Jovem, tinha sido entregue aos cuidados do mosteiro.
Nem o frio nem a disciplina férrea da casa conseguiam
quebrar a irreverência e a energia inesgotável de Dilip.
O seu Mestre desesperava. Não conseguia obter dois minutos
de concentração do pupilo, mente ausente, olhos nas águias.
Era incapaz de ficar em silêncio,
de se concentrar no lótus. Todos os exercícios foram em vão.
Uma tarde, o Mestre chamou-o e disse-lhe:
— Na tua aldeia de que é que gostavas mais?
— Da minha vaca Mestre, gostava tanto da minha vaca!
— Pois bem Dilip, vai para a tua cela e tenta meditar na tua vaca!
Três dias depois, toda a gente estava preocupada.
Dilip não voltara a aparecer nas aulas
e foram à sua procura. Encontraram-no na cela
com um ar pálido e ausente em profunda meditação.
O Mestre falou com ele dizendo-lhe para sair,
ir comer e jogar. Dilip respondeu: — Não consigo Mestre,
os cornos não cabem na porta!—

As figuras de pedra, observam.
Já pariram árvores que sustêm rituais.
O Mundo equilibra-se sobre os calcanhares.
Deste ponto de vista ao nível do umbigo, escolhe-se o lugar
e o tempo, constrói-se o quadrado primordial,
consulta-se as estrelas, mistura-se os pigmentos,
olha-se o fogo e o pranto, rasga-se o veio da madeira, é-se.
A linha do horizonte mais alta, alarga o Oriente,
aproxima-nos dos fogos fátuos, da Terra, da água-mãe.
Os rios correm mais próximos do coração
e a monção, chega rapidamente à boca.
Inunda os conceitos formais, descentra a perspectiva,
simplifica, regra, mata os códigos rígidos,
reencarna outros, afasta o olhar na tela e na mente,
repinta por ausência de cor, telas brancas sempre virgens.
Sucessivamente.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pushkar


Na areia do deserto, o quadrado de água.
Branco doce feito à mão abre-se em escadaria de sombra
sobre o som da tarde.
Fogo e corpos pintados marcam o fim do dia.
A montanha da cobra, desfaz-se da pele suada
para iniciar os rituais nocturnos.
Sobre a ponte, o colorido imaginado das caravanas de antanho.
Brahma e Savitri vestem-se de luz, o Cosmos recicla-se uma vez mais. Pushkar.

domingo, 24 de maio de 2009

Puri

Clara a linha que se traça aqui, em Puri,
entre este Oriente e este Ocidente.
Clara nos reflexos do Sol laranja
no short branco que desce a rua e os olhares
queimam a pele. No Café Harris, bancos corridos
e mesas verdes, exposição de livros na entrada,
desfilam francesas homossexuais amantíssimas,
uma mulher bonita de olhos tristes e gesto assustado,
um puto canadiano que acabou de telefonar à mãe,
vários magríssimos junkies, a que te quer comer
com os olhos e depois com os lábios,
péssimas cópias do trabalho do corpo hindu,
uma atónita família indiana, um casal
espanhol muito zangado com tudo,
várias confusões linguísticas a propósito do café black
ou não, duas ou três quarentonas à procura
da aventura final. Do outro lado da rua
desfilam os turistas indianos devotos de Hanuman.
Desembarcam aos seis de cada vez dos motoriquechós,
enchem o espaço de cor e sons agrestes.
Olhamo-nos mutuamente: o Café Harris
como mostra de produtos do Ocidente,
a porta do templo, o quotidiano deste Oriente.
É clara a linha de demarcação: apenas uma rua estreita,
paralela ao mar. A geografia confirmará
que o Café Harris se encontra do lado ocidental da rua.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gangaikondacholapuram


A paisagem parou no meio da batalha do imperador Radjaradja com as tribos da montanha. A nuvem de poeira começava a assentar
e, no horizonte amarelo, desenhava-se, lentamente, o templo de
Gangaikondacholapuram. A sombra das acácias refazia-se no solo, a pedra do templo avermelhava a tarde.
O imperador despiu a armadura, surpreendido por não estar a ser assistido nesta operação pelos seus escravos, ainda para mais tendo ganho, supunha ele, a batalha.
As pesadas peças de protecção do corpo, a espada e o elmo
descansavam na poeira. Radjaradja, olhou em volta,
chamou os capitães, os criados. A voz ecoava na pedra
de Gangaikonda juntamente com o coro desafinado
de corvos e macacos. Percebeu que estava só e,
que o templo que agora via, apenas o tinha imaginado
antes da batalha, não podia estar ali.
Contornou as pedras, subiu os degraus,
confrontou-se com Surya e Vixnu nas paredes laterais.
Voltou a chamar os seus capitães e gritou bem alto
pelos criados, mas nada. A voz reverberava nas pedras
como um mantra infinito e recorrente.
Radjaradja sentou-se e resolveu meditar
como lhe tinha ensinado o seu mais querido mestre.
Concentrou-se na respiração e no mantra,
inspirou, expirou, inspirou...a batalha estava brava,
o suor toldava-lhe a visão.
Conseguiu apenas adivinhar o silvo de uma flecha
e uma dor lancinante atravessou-lhe a garganta
impedindo-o de gritar. Os olhos pararam a paisagem
e o silêncio invadiu os horizontes de Gangaikonda,
enquanto a pedra vermelha se desfazia em pó
lento e inexorável e as estátuas desapareciam
diante dos olhos já líquidos do imperador.
Um século mais tarde, no local da batalha, iniciou-se a construção
difícil e demorada de Gangaikondacholapuram.
Várias equipas de canteiros abandonaram o local
ao longo dos anos em fuga aterrorizada.
Diziam ouvir mantras dentro das pedras
e uma respiração cadenciada como a de quem medita.