terça-feira, 14 de abril de 2009

Kolkata


Calcutá é um restaurante no Bairro Alto
de Lisboa onde os onion bhadji são bastante aceitáveis
mas é também uma cidade com a maior feira
do livro do Mundo.
Nela as estações de metro estão periodicamente inundadas
e pode-se tomar café em tertúlias tranquilas onde,
a todo o momento, Rabindranath Tagore pode entrar
pela porta, sentar-se na nossa mesa e discutir literatura e filosofia.
Calcutá é a outra cidade do cinema:
Bombaim produz Hollywood, Calcutá produz Cannes.
Kali reina em Calcutá e subverte os valores da morte
e da vida transtornando as cabeças racionais organizadas.
Desconhece-se se os onion bhadji de Calcutá são melhores
que outros quaisquer mas, em contrapartida,
sobre o rio Hughly, debruça-se a Ponte. Howrah é uma ponte
e uma paragem no tempo.
Quem esculpiu este ferro/animal?
Se por baixo de todas as pontes deslizasse um rio
honesto e farto como este filho do Ganges
a nossa relação com a geografia seria mais rica e,
as fortificações que se adivinham nas suas margens, ganhariam
foros de ruína patrimoniada e classificada.
Imensos peritos desceriam o rio em barcos
com bandeiras e espingardas, desassossegando búfalos e garças,
tomando notas, acenando, rosnando baixo contra os mosquitos,
classificando, inventariando, registando, digitalizando as pedras,
as arquitecturas. Felizmente que a alma desses lugares flutuaria,
agarrada a algum tronco destroçado de banian e, docemente,
sem murmúrios, desembarcaria no mar largo do golfo de Bengala
para não mais ser vista ou lembrada.
É Howrah que sabe todas estas histórias e,
quando a atravessamos, numa tentativa vã de unir margens
e fragmentos e partidas e abraços, sábios que do Mundo sabem,
quando a atravessamos, esta metrópole suspensa do ferro e da arte,
do grito do corvo e do riquexó, esta ponte nada nos diz
e o rio fica longe, lá em baixo, aparentemente parado.
Que silêncio!

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